ESCOLHAS DE UM APRENDIZ

A campainha soa. Pelo olho mágico, identifico quem chega: Angústia, Tristeza e Autocomiseração. Normalmente, andam juntas. Hesito. Reflito.

Elas me sorriem. Seus sorrisos me são familiares. Lembram, parecem, acho mesmo que são os sorrisos de pessoas queridas. São sorrisos de compreensão, como se assim dissessem: “Podemos notar o quanto você nos aguarda!”.

Lá de fora, como se me vissem cá dentro, aguardam impassíveis, calmas, cheias de ternura. “Abra! Viemos te fazer companhia!”. Há sinceridade em seus sorrisos. E eu posso ler esses pensamentos em seus sorrisos.

Encosto a testa na porta, na altura do olho mágico. Elas sabem que eu estou ali. E me aguardam. Fecho os olhos e me lembro de quanto elas podem fazer bem a um espírito solitário. Eu já senti o prazer de suas companhias. Aliás, é tudo que alguém pode precisar para viver normalmente. O mundo quase todo depende delas e se convive com elas. Elas estão em toda a parte. Onipresentemente poderosas. E agora estão aqui em minha porta: delivery e 0800! À minha inteira disposição.

Giro a chave na fechadura. Depois a maçaneta. Noto que elas se ajeitam para estarem bem apresentáveis. Abro a porta.

“Que desejam?”. A pergunta parece pegá-las de surpresa. Entreolham-se desconcertadas. “Não nos reconhece?”, pergunta a Autocomiseração. “Desde que você era pequeninho, criancinha, fazíamos-lhe companhia quando todos o abandonavam…”. “Sim” – completou a Tristeza – e você ficava chorando no fundo de sua casa ou perdido no meio da mata, perdido no meio da pobreza e de um mundo escroto que não o entendia…nem o entende até hoje…”. Foi, então, a vez da Angústia intervir: “E nós o púnhamos no colo, quando pequeno; inspirávamos suas canções e poesias quando você era adolescente; bebíamos com você até cair, varando a madrugada, quando se tornou adulto e cheio de problemas sem solução…”.

Fitam-me, sorrindo, à espera das minhas recordações, durante um segundo que parece durar uma eternidade.

“Ah! E Desculpa está chegando, também! É que ela foi pegar Sem Rumo…mas já chegam…”, arremata, ainda um tanto quanto desconcertada, Angústia.

“Podemos entrar, agora?” – pergunta Tristeza, enquanto avança em direção à porta. Mas seu queixo esbarra no meu braço atravessado à sua frente, de um lado a outro da entrada.

Ouço um “Oh!” de espanto. Uníssono.

“Não vai nos deixar entrar?” – pergunta Autocomiseração. “Sim, podemos ajudá-lo!” – complementa Tristeza. “Verdade, Erasmo! Sempre estivemos ao seu lado!” – finaliza Angústia.

“Sim, eu sei disso! Foi uma escolha minha e sei que vocês, sinceramente, desejaram me ajudar, me proteger, me dar um sentido, me pôr a salvo. Mas, na boa, não preciso mais de vocês. Agradeço pelo que fizeram e pelo que tentaram fazer por mim. Só que fiz novas escolhas. E nelas não estão vocês, compreendem?…”.

“Hei! Erasmo!”, grita uma voz que vem de dentro do apartamento. “E aí? Vamos começar ou não esse Plano de Prospecção de Clientes, pô?”. “Só um minutinho. Já sabemos por onde começar….guentaê!” – respondo, tranquilamente.

“Você está com visitas? Podemos voltar outra hora?…” – pergunta Angústia.

“Não. Não estou com visitas!” – respondo, sorrindo.

“Erasmo, esse roteiro aqui está bem legal! Posso compartilhá-lo?”. – grita outra voz do lado de dentro do apê. “Manda ver! Eu já estou indo!”.

Angústia retruca: “Mas….e essas vozes? Por que está mentindo prá gente?”.

“Não estou mentindo!” – respondo-lhe suave e sorridentemente.

“Então?….” – pergunta Autocomiseração, reticentemente, apontando para dentro do apê.

“Não são visitas: são minhas companhias, minhas novas escolhas!”.

Viro-me para trás e lá estão Incentivo, Prosperidade, Foco, Meta, Objetivo, Alegria, Escolha e mais uma trupe, sorridente, que me deixa feliz!

Nisso, o telefone celular de Tristeza toca. Ela atende. E depois de poucos segundos responde: “Não! Não precisam mais vir! Não! Vocês não estão atrasados! O espaço já foi ocupado!”.

“Adeus, Meninas! Grato por tudo! Com licença! Tenho muito que fazer, agora!” – despeço-me enquanto fecho a porta. Elas se vão, mudas e compreensivas.

“Putz! Quase duas da tarde! Vumbora, Galera! Temos muito a fazer por aqui! E o que é isso aí em sua mão, Escolha?”.

“O roteiro de sua história, ou melhor, de suas histórias…foi você quem fez! Por isso estamos todos aqui!”.

***

Escolhas podem provocar lágrimas. Mas você decide se de Tristeza ou de Alegria. Tenho certeza que você sabe de onde vêm as que brotam aqui, agora…

(Histórias de verdade não têm “The End”. Têm recomeços! “Begin again!”)

Erasmo

29Ago2015.

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