A taça sob o vestido

“A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?”

(Seu pensamento. Adriana Calcanhoto)

Onde estaria o pensamento do forasteiro naquele momento?

Afinal, todos conversavam animadamente na festa, mas seu olhar – quase que imperceptivelmente – fixava-se, como se visse a eternidade dentro de um minuto, noutro ponto.

Qual?

Percebi que, apesar do esforço para não perder o foco visual da conversa, seu olhar o traía discretamente, levando-o para um ponto à sua frente, um pouco inclinado para baixo. Não demorei a perceber o que lhe roubava a atenção: Ava estava de pé à sua frente. Segurava uma taça. Usava sapatos com saltos finos e um vestidinho de estampas coloridas que ia até um pouco acima dos joelhos. Seu pé direito estava ligeiramente apoiado no esquerdo, como se tentasse se equilibrar sobre uma única perna. Às vezes, desequilibrava-se, tão levemente, que só o olhar mais atento podia notar. E isso tornava a visão ainda mais atraente, pois fazia lembrar uma flor, com sua haste enfiada no chão, harmônica, bela, balançando ao sopro da brisa. O vestido, apesar das estampas, possuía um tecido fino, suficiente para revelar os contornos internos de suas claras e sensuais coxas, os quais, subindo, partindo dos joelhos, abriam-se – como traços de Balthus num segundo plano – suavemente até a base das virilhas, indo até os lados do púbis, cujo contorno convexo, leve e encantadoramente perceptível, provocava o desejo do mais demente dos mortais (e, nos maníacos, a sensação de que aquela sedutora convexidade cabia-lhe na concha da mão, como o corpo de uma taça).

A música animava a festa.

A conversa fluía entre as risadas. As de Ava, em especial, excitavam os ouvintes e, mais ainda, o forasteiro, fazendo com que este se embriagasse, vertiginosamente, a sorver o vinho daquela tulipa dentro do éter da noite.

Como que despretensiosamente, encostei meu ombro no seu, retirando-o um pouco do êxtase em que se encontrava e, com um sorriso malicioso, estendi-lhe meu copo: “ – Saúde, amigo!”. Ligeiramente surpreso, mas com um sorriso calmo de quem fora discretamente flagrado nos seus pensamentos mais íntimos e lascivos, retribuiu-me o gesto: “ – Saúde, amigo! …e que saúde!”.

(Tela: Nu com o gato. Balthus)

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