Vida e morte de um amante virtual – ou ame o rio sem querer mudar seu curso

Assim passavam-se os dias, não exatamente melancólicos, mas pálidos. Eram-lhes como o arrumar infindável de um quarto velho, cheio de bagunças: tirava uma buginganga daqui, punha-na noutro lugar…ou no mesmo lugar. Cada foto parecia-lhe a mesma. Cada objeto, nada mais era-lhe que o miolo de uma espessa camada de poeira.
Empoeirados pelo tédio: assim passavam-se os dias.

***

Lembrava-se do “acordo” e de como o “assinara”.
Não era propriamente um bom acordo.
Dizem: “um bom acordo tem que ser bom para os dois”. Sequer tinha certeza de aquilo era um acordo. Como podia ser bom?
Calhava-me mais como uma suave imposição; um ato unilateral consentido; um remédio que se toma contra a vontade, muito embora se saiba que ele não vai curar a dor, muito menos a sua causa e, ainda, sim, necessário.
Um placebo, enfim.
Então, abria as pequeninas cartas eletrônicas e sentia falta daquela comunicação instantânea. Estava a pagar o preço do mergulho virtual, tendo que voltar nadando sozinho à margem do rio. Carinhas, sinais, historietas, sonhos em versos, rabiscos da alma, jardineiros e suas flores do mato, canções, interrogações, exclamações, reticências na madrugada ou a qualquer hora do dia…ia-se tudo na correnteza.
Queria perder as forças e parar de nadar, deixar que também ele fosse levado pela correnteza.
Porém, é certo que prometera não tentar segui-la (ou por ela se deixar levar). Sob essa perspectiva, era um acordo, então. Um péssimo acordo. Mas um acordo. Talvez péssimo, agora. Quem sabe bom, no futuro?

***

Qual o preço por quebrar as convenções? Por mergulhar no rio da inconvencionalidade?
Não se sabe de antemão. É preciso mergulhar para saber. Ou não mergulhar e manter-se seco, são e a salvo…

A correnteza – feito remédio amargo a descer pela garganta – ia levando cada bobagem de ouro, cada dubiedade divertida, cada insanidade feliz, cada pétala de flor, o sorriso de colar de marfim, o perfume quase imperceptível, tudo, tudo, tudo, para as entranhas da Terra.
Levava, enfim, a própria felicidade.
***

Mas é preciso saber amar sem transformar o rio em um lago; sem impor, sem forçar o seu belo curso. Sem fazer da tecnologia uma forma de violência. E isso também traz felicidade.

***

Deixou o quarto e suas bugingangas do mesmo jeito. Não mais precisava delas.

Curara-se?!(emoticon de surpresa) Que maravilha! (emoticon de alegria)

Não! Apenas precisava, agora, ir comprar alguma coisa para comer e para tapear o sorriso iluminado da geladeira. (emoticon de censura)

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