A UM VIRA-LATA CHAMADO PERY – uma homenagem póstuma

Um vira-lata chamado Pery

Não sei se isto é verdade. Quero dizer, se é “verdade científica”. Mas quando eu era pequeno, ouvia dizer que os animais domésticos ao pressentirem a chegada da morte, buscam um lugar longe das pessoas queridas (que alguns chamam de donos) para que essas não os vejam partir.
Lendas urbanas. Talvez!
Mas Pery estava a cada dia mais debilitado, e saiu de casa, não mais retornando.
Pery era um vira-lata teimoso e brincalhão. Fugia pelo portão sempre que alguém o abria, numa velocidade incrível. Mas sempre voltava. Afinal, era o cão de guarda de minha mãe.
Às vezes retornava todo sujo e machucado por causa das brigas com outros cães na rua. Em uma de suas últimas aventuras, voltou tão ferido que foi preciso amputarem-lhe a cauda, que ficara dependurada, possivelmente em decorrência de uma violenta mordida do adversário.
Até que ficou bonito, o danado. “Look” novo, depois de coroa. Coroa? 10 anos? É que, segundo a escala humana, ele teria em torno de 60-65 anos!
Mas, apesar dessa “idade relativa”, era cheio de energia e não perdia a mania de brincar como se fosse um animal jovem. Às vezes, durante as visitas à casa de minha mãe, eu o provocava com algum brinquedo, de preferência uma pequena bola, ou fazia de conta que estava jogando capoeira, e ele, feito uma criança, corria de uma ponta a outra da casa, quase derrubando tudo.
Depois, deitava-se na sala e ficava escutando nossa conversa. Vez por outra, levantava uma das orelhas, como se estivesse prestando atenção mais atentamente a algum ponto do diálogo.
Alguns de meus irmãos ralhavam com ele por conta de sua teimosia. Mas, confesso, era o que eu mais admirava nele. Apesar de dócil, levado, traquina, nunca deixou se “adestrar” como as pessoas queriam. Era um tal de “Aquéta, Pery! Volta, Pery! Sai, Pery!”, sem que Pery obedecesse.
Curiosamente, quando eu ia abrir o portão da casa materna – que era exatamente o momento em que ele aproveitava para escapulir – eu não precisava gritar para que voltasse, nem precisava lhe mostrar cipós ou chinelos. Ralhava apenas uma vez e ele ficava de lá do alto da escada, com as orelhas em pé, olhando-me, com um ar interrogativo, como se se indagasse por que me obedecia se eu não precisava fazer tanto barulho para isso.
E eu também – até hoje – não sei.
Só sei que o velho-moleque-Pery saiu, debilitado, e não mais voltou. Talvez seja verdade que animais não gostam de velórios. Talvez porque entendam mais da vida (e da morte) que nós, humanos. Talvez prefiram não serem lembrados como cadáveres enfeitados, tampouco juntar tanta dor a seu redor. Porque não podem mais olhar dentro dos nossos olhos como faziam quando em vida, quando apenas(?) ouviam nossos desabafos e nos davam em troca um belo silêncio, como se dissessem: “Eu lhe compreendo de verdade!”.
Tomara que haja um “paraíso” para os cachorros. Aliás, é só o que deve haver. Porque quem precisa de inferno e de purgatórios somos nós, os outros animais. E lá no paraíso dos cachorros, não devem existir grades, coleiras ou correntes. Deve ser uma terra sem limites, na qual eles podem correr e brincar à vontade, sem ninguém para lhes ordenar. Não devem existir bombas que tanto os assustam – nem armas químicas, que sequer eles sabem do que se tratam. Não devem existir raças superiores e inferiores, mais caras ou mais baratas que outras.
***
Que droga, Pery! Eu tinha tanta coisa para fazer. Mas não consegui me concentrar. Precisava soltar essa dor. Eu precisava ralhar com você.
Pelo menos agora.
Aqui, solitário, escrevendo essas bobagens, com os olhos avermelhados, ardendo por causa de uma água salgada que vem lá de dentro.
E sem saber, de verdade, que fim você levou!
Adeus, seu cachorro levado!
Obrigado por ter sido o fiel companheiro de minha velha mãe por tantos anos; por tê-la ouvido em seus desabafos nas madrugadas, enquanto nós, seus filhos, dormíamos em nossas camas. Obrigado por ter brincado feito criança com ela, enquanto nós, filhos crescidos, cuidávamos de nossas vidas.
Ela é durona. Sei que não vai dizer que chorou por seu desaparecimento. Mas sei, tenho certeza, que você lhe fará uma tremenda falta.
Talvez demore até que acostume a abrir o portão sem que você esteja lá para escapulir ou a olhar para o chão da sala e não vê-lo deitado, com a barriga voltada para cima e com as pernas abertas, olhando o mundo de cabeça para baixo.
Talvez demore – como todos nós – até que compreenda que há, pelo menos, duas igualdades irrefutáveis entre todos os seres vivos: a de nascer e a de morrer, o que parece nos fazer filhos do mesmo mistério.
Erasmo.
Aos quatro dias da Primavera de 2013.

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