ADEUS, NEI! Minha homenagem póstuma!

Ele partiu um dia antes do Apocalipse. Ou, pelo menos, do dia em que muitos esperavam que o mundo novamente se acabasse. Vítima de um acidente vascular cerebral, ele deixou, assim – de uma forma tão abrupta e estúpida – o Planeta que não acabou no dia vinte e um de dezembro. Voltou ao pó da terra, reafirmando o Grande Mistério da Vida. Paradoxalmente, a Morte.

Barbosa para uns, Aldinei para outros. Ou, ainda, como para mim, simplesmente Nei. Quarenta e três anos de idade completados em setembro último. Deixou dois filhos, a companheira Dircione, batalhadora (mulher, amiga e sempre presente em seus momentos), deixou parentes e amigos sem ter tempo de despedir-se deles.

Logo ele, sempre tão cortês e educado!

É incrível como a Morte desrespeita nossos valores e crenças. Esses, que tentamos (e muitas vezes conseguimos) impor aos outros como verdades absolutas.

Conversávamos sobre essas coisas, de vez em quando. Às vezes, passávamos horas exercitando o direito de questionar o sentido da vida, a conduta dos políticos, os avanços da ciência, a grandeza e a mesquinhez da Humanidade, entre dezenas de outras questões que se cruzavam sob o passar das horas, enquanto ele corrigia os problemas do meu velho e bom HP Pavillion dv6000. Esse mesmo que agora toma conhecimento do que ocorreu com o seu “médico” (“Doctor PC” – como anunciava seus serviços comercialmente). Nossa Filosofia.

Eram os raros “momentos do Olympo”, quando parecíamos olhar para o mundo lá do alto, cheios da pretensão de semideuses.

Mas não tenho como duvidar de que ele era um semideus, pois, apesar da paralisia que lhe tolhera os movimentos dos membros inferiores após um acidente automobilístico, Nei continuava acreditando na vida. E eu tinha a impressão de que a energia que fora proibida de circular por suas pernas convergira para sua mente. Muitas vezes, ele passava as noites em claro, tentando descobrir um novo engenho capaz de eliminar uma nova praga virtual. Aprofundava-se cada vez mais em sua ciência, criteriosamente, apaixonadamente, como um verdadeiro pesquisador. E depois tentava me explicar, pacientemente – e em vão, é claro! – sobre os avanços das tecnologias, sobre a capacidade do Karspersky (que para ele era o mais poderoso dos antivírus do Planeta, no que eu discordava!).

Sua energia era tanta, que me fazia acreditar na superação física de sua limitação. Sim, eu tinha certeza de que um dia voltaria a caminhar sem o uso das muletas. Eu próprio participava desse desafio, recolhendo material na internet que tratava de avanços na recuperação de movimentos do corpo, obtidos, inclusive, através de experiências realizadas com robôs e militares.

Se a morte não o alcançasse tão prematuramente, era certo que correríamos juntos. Eu podia ler em seus olhos que aquele era um dos seus grandes projetos.

Isso lhe dava sentido à vida e eu o admirava por ver alguém portador de uma limitação tão grande, não se acomodar.

Eu partilhava de algumas de suas conquistas e também de algumas de suas dores. Acompanhei, por exemplo, seu dilema quando – após o ato mais mesquinho e indigno que já vi uma comunidade praticar, qual fora o de instalar uma barreira para que o carro de Nei não pudesse chegar até à porta do prédio onde morava – vi-o ter que escolher em não tomar nenhuma providência legal contra a arrogante “Comissão Fiscal”, que foi a responsável pela instalação da barreira anti-portador de necessidades especiais (anti-PNE). Essa escolha forçada em não exercer seus direitos ocorreu para que o dono do imóvel no qual residia não sofresse retaliações, conforme ameaçou a pseudo-comissão representativa. Vilania!

Nunca confessei isso, antes, nem mesmo para o próprio Nei, mas a postura inqualificável da tal da “Comissão Fiscal” fez-me desgostar daquela moradia. Foi a partir daquele instante que tomei a decisão de me mudar dali. Pois todos os dias que eu olhava para aquela barreira (um tubo pedaço de tubo de PVC, com cerca de um metro e meio acima do chão, recheado de cimento, chumbado no meio da rampa que dá acesso ao prédio onde morava) via nela um instrumento de tortura a serviço da intolerância. E aquilo me feria a alma todas as vezes que eu passava. Eu ficava a imaginar o que aquelas pessoas poderiam fazer com as demais se algum dia alcançassem o poder!!

Mas, enquanto eu deixava que aquele gesto de intolerância, preconceito e arbitrariedade me incomodasse (a ponto de me motivar a sair de lá), o Grande Nei trabalhava em seus projetos.

E foi assim que, logo depois desse episódio da instalação da truculenta barreira, duas torres de sinal de internet brotavam do alto do seu prédio, projetando-se em direção ao céu, deixando para baixo todas aquelas mesquinharias.

Grande Nei! Ele não precisava daquelas pernas: ele tinha asas!

E era com essas asas invisíveis que acompanhava seus dois filhos – as duas maiores paixões de sua vida!

Parece que tudo ao redor deixava de fazer sentido quando ele se referia àquelas duas crianças ou quando estava com elas. Contava-me sobre o quanto elas haviam mudado sua existência (e queria convencer-me para que eu também tivesse um filho). Tentava explicar-me o que era a felicidade de ser pai. Estava a cada dia mais feliz porque a mãe dos meninos – de quem era separado – já estava deixando-os ficar mais tempo com eles. Falava-me sobre isso com um imenso orgulho, feliz de verdade. Estava ansioso pela chegada do Natal, pois, salvo engano meu, seria o primeiro Natal que passariam juntos desde a separação do casal.

Lembro-me que em certa ocasião saímos os quatro – eu, ele e os dois garotos – para resolver algumas coisas no Centro de Salvador. Em dado momento, os pequenos me deram as mãos e eu saí caminhando com eles, enquanto Nei vinha um pouco mais atrás. Por alguns instantes, eu estava curtindo os filhos dele, até que me veio a ideia de que aquilo podia não ser bom para ele. Afinal, para mim era fácil andar livremente com os seus filhos, enquanto ele podia apenas seguir-nos à distância, com muita dificuldade por conta de sua limitação.

Temi que aquela pequena aventura pudesse ter despertado algum ciúme no pai zeloso e diminui o passo até que estivéssemos todos juntos, novamente.

Muito tempo depois, Nei me perguntou se naquele dia em que eu estivera como se fora o pai dos guris, se não brotara em mim um desejo de ser um pai. Apenas sorri e não lhe disse o que realmente tinha se passado em minha cabeça.

Eu estava pensado nele. Ele estava pensado em mim…

Enfim, o Natal chegou! Mas Nei precisou partir antes de sua chegada!

Talvez tenha sido requisitado para ajudar ao Papai-Noel na logística de distribuição dos brinquedos.

Que Deus o tenha em seus braços, Amigo Nei!

Se encontrares com o meu Pai por aí, irás reconhecê-lo de imediato. Dê-lhe um imenso abraço por mim.

Erasmo

Antevéspera do Natal de 2012.

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