SOU CIDADÃO – Sim! E agora?!

Há um discurso bastante interessante que busca fortalecer a ideia de que o voto – muito mais que um dever – é um direito do cidadão. É interessante, por um lado, pois resgata a histórica luta por tal direito e, portanto, traduz a conquista pela liberdade de escolha dos próprios representantes pela sociedade. E é interessante, por outro lado, pois o discurso do voto enquanto direito serve como um dos fundamentos para a defesa do voto obrigatório.
Paradoxal? Certamente. Mas – apesar da importância dessa discussão – não me atenho a ela. Pelo menos, não agora. Uso-a, apenas, para contextualizar o tema.
Também não me atenho ao que talvez seja o verdadeiro mérito da questão, qual seja a dimensão econômico-financeira. Esta que, na maioria esmagadora das situações, é a verdadeira mola-mestra das mobilizações humanas. Será que existiriam interesses econômico-financeiros na manutenção do voto obrigatório? Como é enfadonha a obviedade.
Pois muito bem: coloquemos as lentes azuis de Pollyanna e vislumbremos apenas os aspectos positivos da questão.
Sim, o voto é mais que um dever: é um direito. Concordo.
É um direito conquistado com muitas lutas permeadas pelos ideais de democracia e de liberdade. Isso é incontestável.
Também consideremos que, em virtude do preço que a sociedade pagou para conquistá-lo, o indivíduo não possa abrir mão dele. Não é essa uma premissa totalmente sustentável, mas – ainda sob uma perspectiva “poliânica”, tentando aproveitar totalmente o discurso do voto enquanto direito -, digamos, também, que sim.
Até aqui, além de justificável, o discurso alimenta o ideal humano da conquista e da auto-superação. Afinal, o que seria da Humanidade sem tais anseios? Inimaginável.
Mas, no meu caso, toda esta complexa construção histórica, que parte da gênese do voto ao seu momento atual, estanca diante de um profundo abismo. Isso porque tenho um magnânimo e poderoso direito na mão – tão importante ao ponto de não poder sequer abrir mão dele – o qual, porém (e que triste ironia) não tenho como utilizar.
É como se o tivesse carregado, atravessando as mais diversas intempéries e agora, frente a um abismo, ele perdesse toda a sua utilidade.
Aqui também se perdem os poderes das lentes de Pollyanna.
O que significa esse abismo? Tentarei explicar.
Sou um Cidadão de um Município integrante da Região Metropolitana de Salvador. Apesar da proximidade com a capital baiana, aqui a campanha eleitoral possui características bem próprias, típicas dos municípios do interior do Estado, como os candidatos disputando espaços no Mercado Popular, abraçando e beijando desconhecidos (mas potenciais eleitores), bebendo pinga no mesmo copo “do companheiro” e outras bizarrices.
Há, ainda, dezenas – talvez até centenas – de carros de som, infernizando a vida dos moradores, das oito às vinte e duas horas, graças a uma legislação eleitoral excessivamente permissiva e influenciada pelo lobbie formado pelos proprietários de tais equipamentos.
Neste exato momento, por exemplo, três carros de som com propaganda de candidatos a prefeito e vereador tentam conquistar os votos dos eleitores daqui desta rua. Abstraio a questão do incômodo que eles causam. Tento supor que, novamente, não é o aspecto econômico-financeiro que soprepuja o aspecto institucional e que, de fato, há uma necessidade de que a população conheça os seus candidatos através desse meio de comunicação.
Paradoxalmente, trata-se de um meio arcaico e desrespeitoso, mas, ao mesmo tempo, arquitetado sob a orientação de uma estratégia neurolinguística maquiavélica, posta em prática através da repetição exaustiva e massificadora, difusora de “lemas que alguns fazem passar por ideias”, parafraseando Mario Pedro Vargas Llosa.
Superada essa etapa do exercício de aceitar a forma da propaganda (exercício bastante difícil, diga-se de passagem), esbarro na parte mais difícil, mais bizarra e estonteante: a do conteúdo das propagandas.
Ouço, logo desisto!
Ouvindo as mensagens dos candidatos, chego à conclusão de que eles não me respeitam, que me tratam como a um idiota e que transformam o que poderia ser – quem sabe? – a “Festa da Democracia” num “Grande Festival de Incoerências” (uso, aqui, um termo bastante eufemístico).
É incrível como a criatividade “marqueteira” é utilizada para tentar esconder o fato de que a maioria dessas mulheres e desses homens não tem a mínima noção do que seja, por exemplo, o papel do Legislativo Municipal.
Todos eles prometem que vão fazer tudo (pela saúde, pela educação, pelo esporte, etc etc), de forma que – somente ouvindo as propagandas – não dá para distinguir quem é candidato a prefeito ou a vereador. Ou seja: os papeis das funções Executiva e Legislativa se misturam nessa Babel de discursos sem pé ou cabeça.
Para agravar essa situação, a liberação para o uso dos jingles no formato de versões dos hits musicais, contribui ainda mais com a consolidação dessa triste e mascarada realidade. É que o “balanço”, a “pancada”, a “batida” das músicas “mais tocadas da semana” conseguem produzir nas massas a sensação de identidade cultural, da “Globalidade” contagiante… e tão desprovida de consciência: a música como instrumento de alienação.
E é impossível distinguir, por exemplo, os discursos da candidata evangélica da “do mundo” (utilizando, forçadamente, o sectário e discriminatório jargão religioso), pois o jingle daquela – estrategicamente desenvolvido para atingir o maior número de eleitores fora das igrejas – utiliza a mesma melodia “mundana” dessa outra.
As versões mais variadas do tema da atual novela Global das oito, “Oi/oi/oi”, entre outros hits do tipo “Eu quero tchu/ eu quero tcha”, repetem-se nesse processo de lavagem cerebral coletiva, instalando nas mentes e nos espíritos desprevenidos não exatamente a confiança numa política melhor (pois não há mais quem creia nisso), mas, na verdade, instalando um estado de excitação carnavalesca, com o único fito de tirar o foco de uma possível consciência política.
E nesse enredo só se fala em mudanças, em melhoras.
Mas, pergunto: Como isso pode ocorrer? Se aqueles que se dizem arautos dessas mudanças sequer sabem quais seus verdadeiros papeis?
Na minha tosca avaliação, essas estratégias de marketing só revelam – com mais realce, ainda – a incapacidade política desses candidatos. Obviamente, não me refiro à incapacidade política para gerar riquezas pessoais, pois, nesse aspecto, há poucos incapazes. E também não me refiro a esses candidatos enquanto pessoas. Muitos são, inclusive, meus amigos e conhecidos.
Refiro-me à incapacidade política de, por exemplo, formar um Poder Legislativo Municipal verdadeiramente autônomo e independente em relação ao Poder Executivo (na quimérica concepção constitucional de equilíbrio dos poderes). Ou, ainda exemplificativamente, à incapacidade de se instituir um Poder Legislativo Municipal que fiscalize o Poder Executivo Municipal ao invés de locupletar-se através dessa nobre função típica, adormecida ao lado da de legislar.
E isso me deixa sem opções.
Volto à imagem do abismo.
Vejo-me do lado de cá desse precipício, portando esse importante direito – o de votar. E vejo lá, do outro lado do vale, o “Grande Festival de Incoerências”, cujos acordes atordoam meus ouvidos e, pior ainda, meu espírito.
E, de tanto ouvir à exaustão esses jingles, já não consigo raciocinar – mesmo entre as vinte e duas horas de um dia e as oito do outro – sem que eles estejam impregnados num segundo plano em minha mente. Assim, sou forçado a adotar a mesma estratégia político-musical para emitir meu protesto:
“Não. Não quero tchu/não quero tcha/ Somente queria ter em quem votar.”
“Oi/oi/oi…oi/oi/oi. Meu voto é força/e de nada serve/prá melhorar/porque não tenho/ em quem votar. Oi/oi/oi…oi/oi/oi…”
Policarpo Madrugada (Pseudônimo)
Setembro/2012.

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