Desafiando o Leviatã – I

Olho para o monte de fórmulas matemáticas que desfila em minha frente. Apesar de meu desespero, percebo a fluidez com que o professor trata do tema. Isso me atormenta mais. Burro, eu? Inteligente, ele? Busco na memória os fundamentos para enfrentar tal problema. Não os encontro. Recordo-me de que, no distante “ginásio”, no qual deveriam ter sido construídos os alicerces para esse novo conhecimento, ficamos um ano e meio sem aulas de matemática. No segundo semestre do último ano, “ganhamos” um professor de matemática com a impossível missão de transmitir – e isso já seria muito, dispensada, portanto, a proposta de educar – todo conteúdo de dois anos em menos de seis meses. Não houve o menino cabulador de aulas interferindo no processo educacional. Não houve a desídia dos pais não colocando o filho na escola. Ao contrário, lembro-me de uma mãe lavando a mesma roupa todo os dias para que o filho chegasse – ainda que pobre – limpo à sala de aula. De quem é, então, a culpa? Do Estado? E quem é o Estado? Um ente despersonificado? Ora, essa ficção jurídica se movimenta. E como um imenso Deus e Monstro, afaga a uns, fere outros, mata. Enquanto alguns poucos – afagados por ele – desfrutam de um ensino de qualidade superior, servidos por motoristas negros, outros – divididos entre o cansaço e o crack, entre a sobrevivência e o desafio de estudar – debatem-se sob as patas desse Leviatã. Bom e generoso Leviatã que ordena sejam eles aprovados sem conhecimento, para que não reclamem de discriminação.  Dá-lhes migalhas para que silenciem e caminhem (e morram) em paz, carregando seus certificados de conclusão de curso; para que figurem nas estatísticas hipócritas de um País que – para o mundo exterior – está preocupado com os direitos sociais Bom e generoso Leviatã estampado nos outdoors da falsa publicidade espalhados pelas cidades, nos quais aparecem jovens e crianças sorridentes ao lado de professores bem remunerados. Toda essa farsa me causou prejuízos. Causa-me prejuízos. E quem paga por eles? Não. Os filhos dos políticos em seus carros blindados, portando seus tablets de última geração, nada têm a ver com isso. Eles simplesmente ocuparão os melhores cargos do serviço público, pois entendem a linguagem que esse professor à minha frente fala. Mas não são culpados por isso. Eles representam, apenas, o lado positivo desse processo de manutenção do poder nas mãos de uns poucos; processo perversamente engendrado desde o sempre, independentemente dos militares no poder, independentemente dos FHCs e Lulas da vida, para manter o lado negativo – do qual faço parte – “em seu devido lugar”. O que esse professor está dizendo, meu Deus? As lágrimas tentam irromper, mas eu as retenho. Sinto a ponta da lâmina fria e afiada do poder encostada em meu pescoço. Há uma ordem (sob esse progresso). Ela chega silenciosa, dissimulada, vinda de sua outra extremidade. Diz-me: “Onde você quer chegar, não há lugar para você! Desista!”. Lembro do pobre professor de Matemática tentando sintetizar um conhecimento de dois anos em seis meses. O que terá acontecido com esse “JK da ciência Matemática”? A História se repete em cada canto desse vasto Brasil. A pressão da ponta da lâmina aumenta em minha garganta. Sequer posso engolir a própria saliva. Mas uma outra voz – mais forte que o medo da morte – fala-me sobre um mundo de possibilidades que estão além desses paradigmas. E eu o vejo. E lanço o desafio: mate-me se puder, Leviatã! Ou vá se ferrar! Se não houver um lugar para mim onde quero chegar, eu o farei! Professor, por favor repita o que disse. Eu quero aprender!

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