DESPEDIDAS, CAMINHÕES E “COINCIDÊNCIAS” Uma experiência sobre a Grande Passagem!

Ontem, sofremos a dor de enterrar nosso pai. E só quem já passou por ela sabe a sua intensidade. Mas, também para aqueles que ainda não a vivenciaram, é possível imaginar o sofrimento.

Vimos cada lágrima um dos outros, irrigando a dor da partida do nosso belo pai. Assistimos ao seu repouso, quase sorrindo, após ser vencido por uma doença fatal. Porém, meus irmãos e amigos, devo dizer, com toda a certeza que a cada dia cresce em meu espírito acerca da existência de Deus, que a doença só venceu a sua carne. E isso, mais tempo, menos tempo, seria feito pelo próprio tempo. É sobre esse testemunho – de que seu espírito está belo e vivo – que lhes escrevo, emocionadamente. São lágrimas de saudades misturadas com lágrimas de alegria. O Grande Deus permitiu que nos chegasse uma mensagem muito clara de que nosso Pai já se encontrava ao seu lado e que a vida não termina quando nosso coração pára de bater.

Antes, eu preciso contar-lhes uma historinha.

Lá pelos anos 70, meu Pai possuía uma caçamba (na linguagem técnica: um caminhão-basculhante. Prefiro chamá-lo de caçamba, mesmo). Era uma Mercedes-Benz LP321, a chamada “cara-chata”. Tratava-se de um modelo cujo motor ficava dentro da própria cabine, sem ter, portanto, aquele prolongamento na dianteira, que caracteriza a maioria dos caminhões (coloquei a foto de uma delas no fim do texto). Por isso o sugestivo apelido de “cara-chata”. Ela era azul e possuía uma saudação escrita logo abaixo do pára-brisa: “Salve Maria”. Por ter apenas um eixo de rodas na traseira, recebia (como até hoje recebem os modelos semelhantes) outro apelido: “toco”. A “Salve Maria” era, assim, uma “cara-chata-toco”.

Pois bem. Àquela época, os “caçambeiros” estavam no auge. Havia muitas oportunidades de trabalho para seus equipamentos. Era um trabalho penoso, arriscado, mas que rendia frutos e, para alguns que souberam aproveitar o “boom”, foi possível juntar algumas economias ou reinvestir na própria atividade. Imerso na efervescência daquele momento, encontrava-se “Pernambuco” (apelido dado a meu pai devido à sua procedência). Ele passava a maior parte das horas do dia sobre as seis rodas de sua caçamba. Tanto era assim, que raras vezes parava para almoçar em casa, mesmo passando freqüentemente pela entrada do bairro onde até hoje mora a maior parte da família, na esquecida Valéria.

Naquele tempo, ainda existiam poucas casas no distante bairro de Valéria. Isso permitia que, da casa onde morávamos, fosse possível avistar um pequeno trecho da Rodovia BR-324, a uma distância de aproximadamente entre um quilômetro e meio ou dois. Meu Pai costumava buzinar durante seu percurso naquele trecho. A caçamba possuía uma buzina de ar, típica de caminhões grandes. Ela era acionada através de uma corrente dessas mais finas que se usa para prender cães. Ficava fixada no canto dianteiro do teto, ao lado esquerdo do motorista, próxima ao pára-brisa, e descia até o piso, onde se encontrava com o mecanismo que liberava o som da buzina. Ele tinha um jeito “artístico” de acionar a buzina, fazendo-a se repetir de uma forma inconfundível. Nessas horas, acompanhados do “Oh! Lá vai seu Pai!”,  exclamado por minha Mãe, parávamos tudo que estivéssemos fazendo e corríamos para a janela a gritar, festejando aquele momento ímpar (o qual nunca imaginaria que um dia me faria chorar desse jeito de tantos significados que carrega).

Ainda não éramos os dez que somos hoje. E mais da metade de meus irmãos não teve a oportunidade de experimentar essa sensação, a qual tento, inutilmente, transcrever. Minhas palavras são limitadas e entrecortadas de soluços. E eu não consigo dar a elas a sua real magnitude. Perdoem-me por isso. Permitam-me apenas discorrer minha narrativa, sem a pretensão de reproduzir em vocês as mesmas sensações que experimentei.

Bem, além de servir para avisar que ele estava simplesmente passando naquele momento por aquele trecho da estrada, havia um momento durante o dia em que a buzina servia para anunciar que no seu retorno (quando voltava para recarregar a caçamba) deveríamos levar o seu almoço. Todos os dias, íamos, eu e Joice, minha irmã, levar sua refeição lá na estrada. Raros eram os dias em que ele tinha a oportunidade de almoçar em casa, como disse antes, pois a disputa era acirrada entre os caçambeiros visando a alcançar o maior número de viagens possível. Parar meia hora significava perder várias posições na fila do carregamento.

Mas por que lhes conto essa história tão distante no tempo, tão longe da realidade atual, na qual os filhos cujos pais trabalham tanto podem se conectar com eles através da internet e vê-los através das “webcans”?

É porque Deus, na Sua generosidade infinita, permitiu-me a oportunidade de crer – ainda mais – que a morte não acaba com a vida (ou, se preferirem, que a vida não se acaba com a morte). E aqui me recordo das palavras do meu amigo e irmão, Roberto Muniz, tentando confortar meu coração: “Guerreiro, esse é o grande mistério da vida, no qual teremos que entrar para entendê-lo e ao qual teremos que enfrentar tantas vezes em nossa trajetória”. É mistério, sim. O maior de todos. O mais assustador e mais belo de todos. E ontem eu pude crer, ainda mais, que não existe apenas o Grande Vale da Morte após nosso último suspiro. E sinto-me muitíssimo grato ao Criador por isso. Continua o mistério. Mas vai-se o medo. Do outro lado do Vale inicia-se uma nova trajetória.

Quando meu espírito, embaçado e transtornado pela dor, despedia-se do meu Velho Pai, assistindo à urna que o carregava descendo ao seio da terra; quando esse espírito de pouca fé já se esquecia de tantas maravilhas que me foram proporcionadas; quando meu espírito se consumia na mesquinhez da própria dor, abatido, vencido, não convencido pelas palavras do padre amigo, que tentara, minutos antes, instilar um pouco de fé e de esperança pronunciando palavras de conforto para os amigos e familiares no velório, um sinal, um simples sinal, arrebatou-o da dor. E o confortou.

“Ora, como se vale a natureza humana de artifícios para fugir da dor”, dirão alguns a quem não posso condenar pela incredulidade ao ler minhas palavras. “Ora, como essa natureza se apega a meras coincidências para fundamentar a própria existência”, dirão outros, a quem também não poderei julgar. Mas a todos esses poderei sorrir com o espírito sereno e convicto dos agraciados. Não como admoestação, não como reprimenda, mas apenas como o beijo calmo e sincero que se aplica à face amiga, digo-lhes: “Deus habita nas coincidências!”.

Pois eis que quando a urna funerária descia ao fundo da terra, pronta para deixar em mim a impressão de que a vida acaba aqui e que nada mais há depois, chegou-nos de há poucos metros da pista em frente ao cemitério, o sinal inequívoco, mais belo e alegre que poderíamos receber. E particularmente para mim, numa linguagem clara, personalizada, dirigida ao coração do meu espírito, aquele sinal não carregava outro significado que não aquele de que a Grande Passagem se completara e que o espírito do “Cowboy” chegara completo e exultante do outro lado Vale da Morte…várias buzinadas, meus irmãos e amigos, no velho estilo dos caçambeiros e caminhoneiros com suas buzinas de ar, irromperam pelo campo e eu não pude deixar de exclamar: “A buzina da caçamba! Ouçam!”. E aqueles que compreendiam aquele sinal também o ouviram. Um dos meus irmãos afagou meu ombro por detrás e disse-me: “É a buzina, que avisava você e Joice para levarem a comida!”. E minhas lágrimas de tristeza se tornaram de alegria.

“Coincidentemente”, um ou dois caminhões que trafegavam na via que dá acesso ao cemitério emitiram os sons tão pitorescos. Que outro sinal poderia ser usado tão eloqüentemente? Que outra “coincidência” poderia ser mais útil para uma alma em prantos?

Não é que aquele Velho Traquinas tinha conseguido uma forma de avisar que chegara bem? E que até o próprio Criador – a quem tudo é possível – feliz pelo retorno de seu filho amado, permitiu que nos mandasse notícias suas para nos confortar?

E eu vos escrevo, entre lágrimas de agradecimento, para dar esse testemunho.

***

“ – Oh! Lá vai seu pai!”.

Sim, mãe! Sim, meus irmãos e amigos! Ele chegou lá dirigindo a “Salve Maria”, garboso, bonito, feliz… e com a missão cumprida!

“Coincidentemente”, as caçambas que acabaram de passar por aqui onde moro, e ao final desse demorado texto que lhes escrevo, soltaram suas alegres buzinas!

Obrigado, Imenso Deus!

Descansa em paz, Meu Velho!

Erasmo

23/09/2010

O texto “Salve Maria” fora escrito na chapa de alumínio abaixo do pára-brisa.

Fotos do modelo “cara-chata” podem ser encontradas em http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://images03.olx.com.br/ui/8/51/12/1279969560_106654912_1-Fotos-de–CAMINHaO-MERCEDES-BENZ-1113-ANO-1960-COM-CARROCERIA-1

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