Eu & meus 47 anos de idade

Pensei que iria estar desesperado quando este momento chegasse. Mas, tirando uma dorzinha-aqui-outra-ali; as falhas na memória de curto-prazo; a chegada de um ceticismo sutil quanto a quase tudo que vejo, ouço e até imagino; tirando um amor crescente à Humanidade por suas tentativas inesgotáveis de auto-superação e de se manter como a espécie designada pelo Criador para subjugar as demais – estando, porém, tão mais perto de Caim que de Abel – eis que chego aos 47 anos de idade, com a pressão arterial marcando 120 x 80 e uma pequena história de grandes paixões (ou de passionalidades, como queiram): paixão pela vida e pelas histórias de vida de algumas pessoas; paixão pelas causas (muitas delas, perdidas) e bandeiras (algumas rotas, desbotadas); paixão pela resistência às formas de opressão, às situações, fatos, pessoas, movimentos e ideologias que insistam em usar do poder para ferir, subjugar ou eliminar qualquer forma de liberdade responsável dessa rica e tão pobre Raça Humana, mas desconfiado quanto à sinceridade de algumas vozes que se erguem na pseudo-defesa desse direito elementar, principalmente daquelas inflamadas, proferidas por detrás de um microfone e disseminadas durante o café da manhã e o almoço.

Chego, ainda, carregando algumas idéias fixas, como essa de não querer arrancar o acento agudo da palavra “idéia”, apesar do acordo ortográfico que facilita a vida de quem escreve estar aí em plena vacation legis. Uma idéia sem acento – parece-me – não vai muito longe. Mas é apenas uma tola idéia fixa. As palavras não têm sentido, a não ser aqueles que lhe empregamos, de forma circunstancial. Chego com a idéia fixa de que os demais animais já atingiram a perfeição, enquanto nós precisamos transmitir, de geração em geração, os alfabetos e as taboadas, em salas de aulas, atormentando nossos descendentes, indefinidamente, até que um tempo chegue em que nosso código genético possa fazer isso automaticamente. Enquanto isso, precisamos gastar com consultores, assessores, construtores das mais diversas categorias, enquanto os castores constroem suas barragens sem diplomas de engenheiros. E ainda não vi filas de pássaros em consultórios de analistas tentando descobrir o que destruiu seus ninhos, porque seus filhotes estariam vendendo as palhas para comprar drogas ilícitas. Mas é apenas outra tola idéia fixa.

Por outro lado continuo apaixonado por esse sentimento de inquietude que nos faz criar belas estórias e o desejo do infinito; por esse sentimento de ideal – não raras vezes utópico – porém impulsionador, que torna este imperceptível farelo cósmico tão pretensioso.

Infelizmente, há muitas coisas em que não acredito, ainda, e outras nas quais acreditava, deixei de acreditar. Não acredito, por exemplo, que o sistema de cotas para negros nas universidades, da forma como vem sendo implementado, consiga resolver nossa diferença histórica, se esta continua sendo mantida através da falta de um ensino básico de qualidade para todos; se este continua sendo privilégio de uma minoria, “coincidentemente” branca, é verdade. Contudo, esta fórmula – que tenta resgatar o passado sem criar um novo presente – aumenta o fosso que separa as raças. Segrega mais que iguala. (Aliás, diga-se de passagem, comprovado está, cientificamente, que somos uma espécie única com bilhões de seres diferentes).

É uma pena isso. Juro que gostaria de estar mais leve, mais resiliente, menos indócil, com mais “jogo-de-cintura”, estilo Polyanna. Ou, quem sabe, continuando simplesmente ingênuo, acreditando que as guerras têm seus motivos nobres – e não apenas os (tão mesquinhos) econômico-financeiros. Ah! Doce ingenuidade – a crença nessa eterna luta do bem contra o mal , na qual falsos mocinhos e falsos bandidos digladiam até a morte. Nada há mais forte e “inteligente” que os maniqueísmos. Eu que não perdia, quando garoto (há tanto tempo!), a um único capítulo da Série “Robô-Gigante” e assisti ao último episódio no qual, para salvar a Terra de uma destruição total, provocada por seu Arquiinimigo (já não me lembro o nome! É sinal de que a memória de longo prazo também já está indo embora!), a ele atracou-se e voou para o espaço sideral, lá consumando sua missão, explodindo junto com o vilão e deixando o pequeno Daisaku em prantos (para os jovens, Daisaku era o garoto que comandava o Robô Gigante. Mas nesse dia, o Robô Gigante tornou-se autônomo e desobedeceu – por uma nobre causa – às ordens de seu controlador). “- Adeus, Robô-Gigante!” – ainda ouço a voz grave e emocionada do narrador, despedindo-se daquela Criatura Tecno-ideológica que postergou o fim da Terra e que ajudou a sedimentar em mim uma crença na luta do bem contra o mal, como se esta fosse natural e não apenas uma mera criação para justificação de interesses quase sempre pessoais. Agora, danou-se! Lá se vai a esperança na memória de médio prazo. Quem foi mesmo que disse: “Não somos bons ou maus, mas apenas circunstanciais.”? Mas naquela idade eu ainda não entendia isso e fui chorar escondido atrás da porta do quarto de meus pais, sentindo uma profunda dor no peito e na alma, até ser encontrado por minha mãe, coitada, sem entender o que se passava, até que eu consegui dizer, entre soluços: “O Robô-Gigante morreu!”. Ela chamou-me carinhosamente de “bobo” e aninhou-me em seu peito dizendo-me que tudo aquilo era de mentirinha Acho que na verdade ela queria me dizer que tudo – tudo! –  era de mentirinha. Até quando enxugou minhas lágrimas pela morte de Tancredo Neves e eu tive medo de ver os militares retomarem o poder. E tantas vezes – e tão recentemente – tive a sensação de sentir sua mão enxugando as lágrimas de meu rosto e sua voz carinhosa me dizendo: “Não seja bobo, meu filho: é tudo de mentirinha!”. Atrás de quantas portas ainda terei que me esconder para que meus olhos não denunciem que aquele ingênuo garoto insiste em sobreviver e a acreditar em mentirinhas, como causas nobres e no “grande e único amor da vida”? Minha linda mãe não conseguiu me convencer, porque tantas vezes também a vi chorar atrás da porta do quarto. Quantos “Robôs-Gigantes” morreram em sua vida?

Será que foi também isso que Chomsky quis dizer com “ilusões necessárias”? Isso que minha sábia mãe chamou de mentirinhas? Espero viver um pouco mais para saber.

Chego, enfim, com o surrado alforje das esperanças pendurado nas costas. São muitas. Mas esperanças não pesam, ao contrário das decepções e desenganos. Por isso, deixei estes lá atrás e procuro vislumbrar o horizonte, tentando alcançá-lo. Às vezes, falta-me ar, como na piscina que ousei enfrentar há poucos meses, quando perdi, mais que o medo de me afogar, o medo de ser ridicularizado, aprendendo a nadar depois de velho. Se papagaio velho não aprende a falar, pelo menos arremeda. Don’t worry, Cielo! Tenho pretensões mais modestas.

Continuo admirando Elba Ramalho, frustrado por não ter tido a oportunidade de ter dançado com ela em seus shows. Por outro lado, devo confessar que esta Moça de Cabelos Irreverentes, dona de um conjunto incrível de beleza e competência, chamada Vanessa da Mata, acorda minha alma adormecida há vinte e tantos anos. Ela levita quando canta! É, simplesmente, apaixonante! Mas são Divas de tempos diferentes: não posso ser acusado de “promiscuidade platônica”.

Enfim, quer dizer: parece que tenho vivido!

Se alguém por aí quiser tomar uma por mim, que o faça. Celebre por mim. Há dois anos não bebo álcool. Não, gente! Não precisou nenhum médico fumante ou alcoólatra dizer-me que eu deveria parar se quisesse continuar a viver, nem tampouco trocar a conta do bar pelo dízimo (apesar de respeitar os caminhos escolhidos por cada um). Foi apenas mais uma opção entre tantas outras. Difícil, devo confessar. Mas acho que me ajudou a chegar até aqui magoando menos nas relações sócio-afetivas, destruindo-me com menos intensidade.

E de porre já basta esse do dia-a-dia que dou naqueles que insistem em me amar e que acreditam em mim.

Talvez por isso, esse tempo tenha chegado sem me causar desespero: por causa dessa gente que, mesmo sem entender tantos questionamentos, acolhe-me como sou (ou estou?)

A vida não começa aos 40!

Ela começa agora, neste exato momento!

Feliz 2010!

(mas, cá prá nós, não dava prá minha mãe ter me deixado por último, não?)

Erasmo

07/01/2010

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