MINERVINO, UM MILAGRE DA NATUREZA HUMANA

 Há tempos tenciono dedicar uma homenagem a certa criatura chamada Minervino Santana Neto. Mas sempre me faltam as palavras adequadas. E se, agora, resolvo fazer tal homenagem não significa dizer que as encontrei. É por uma simples constatação: elas ainda não foram criadas! Não há palavras para “explicar” Minervino, muito menos para homenageá-lo à altura. E eu não tenho a eternidade para esperar que isso aconteça ou que um novo acordo ortográfico venha acudir-me, assim como acudiu àqueles que tremiam diante de um trema. Portanto, peço desculpas pelo aquém que ficará minha homenagem e espero um dia poder fazê-la à altura que seu destinatário merece. Descrever a natureza deste ser é algo demasiadamente complexo, tamanha sua simplicidade. Verdades paradoxais existem! Não me arriscarei nessa empreitada, pois me falta capacidade para ir até ao âmago. Creio que a melhor forma para dizer ao mundo quem é essa pessoa é ir relatando algumas passagens que marcaram minha vida. Delas, quem quiser, poderá tirar suas próprias conclusões. Contarei um episódio inesquecível para mim. Há alguns anos, esse meu amigo possuía uma barraca na Praia de Ipitanga. Chamava-se Barraca Portal do Mar, um dos “points” daquela – à época – paradisíaca praia. Somente quem já foi ou é barraqueiro de praia, sabe o quanto é difícil administrar este tipo de negócio. E Minervino entregava-se de corpo e alma naquele mister. Acabou o gelo…lá ia Minervino comprar o tal do gelo. Mal acabava de chegar com isto, já precisava voltar para comprar aquilo outro. E, ele, incansável, procurava dar o melhor de si para que sua clientela não ficasse insatisfeita. Trabalhava ele, sua encantadora esposa, Heleni, e os dois dedicados filhos e respectivas esposas, de forma tão competente que, indubitavelmente, aquele estabelecimento comercial era o que se tinha de melhor no gênero. Entretanto, apesar de todo glamour que iluminava o ambiente e da posição que galgara, nada disso afetava a simplicidade de Minervino. Aliás, parecia que toda aquela popularidade só o deixava mais humilde. E eis aqui uma das pérolas que pude colher dessa relação: No auge do sucesso, a Barraca Portal do Mar foi escolhida por um grupo de cerca de quinhentos médicos cardiologistas, que se encontrava em um Seminário na vizinha Capital de Salvador, para sediar um evento festivo. Confesso que até hoje – decorridos quase dez anos daquele evento – nunca vi nada parecido. Tudo fora devidamente planejado de maneira a cativar aqueles visitantes em sua passagem pela Bahia. E tenho certeza que o objetivo foi alcançado. Lembro-me dos Filhos de Ghandy desfilando pela areia da praia, vindo em direção à barraca, iluminados por um holofote, enquanto a noite mágica se deixava atravessar pelo “Tapete Branco da Paz” e pelo canto típico daquele “afoxé”. Havia, ainda, um belíssimo e contagiante show musical, impregnando no espírito daqueles turistas o melhor desta “Terra da Alegria”, revelando de uma forma inesquecível, “o que é que a baiana tem!”. Diante do sucesso de tal espetáculo, qualquer outro ser humano ficaria seduzido e faria o máximo para apresentar-se como o Grande Anfitrião. Mas não estou me referindo a qualquer outro ser humano. Refiro-me a um singular e incrível ser humano chamado Minervino. O que ele fez naquela noite, é algo que me emociona só de lembrar. O que ele protagonizou representa, para mim, uma daquelas situações que ainda justificam a fé nessa nossa espécie tão tola e pretensiosa. Sua atitude naquela noite marcou minha vida para sempre. Aconteceu assim: O evento crescia em energia, contagiando a todos os presentes. As pessoas encontravam-se em plena integração, em um desses raros momentos de comunhão coletiva. Minervino convidou-me a ir com ele para uma barraca vizinha, da qual o dono aproveitara a ocasião para tentar faturar alguma coisa, haja vista não haver o hábito do funcionamento noturno naquelas paragens. Esta barraca era bem mais modesta em relação à de Minervino e tal contraste se tornava ainda mais evidente naquele momento. Sentamo-nos e começamos a beber cerveja, assistindo, à pouca distância, ao grande espetáculo de alegria que acontecia na Portal do Mar. Em dado momento, não conseguindo conter a curiosidade, perguntei-lhe por que estávamos consumindo em outra barraca, o que significava, inclusive, estar pagando, quando poderíamos estar participando – sem ônus – daquela festa mágica. Vino, então, olhou para o céu – como costuma fazer quando pretende dizer algo muito profundo – parecia procurar as palavras nas estrelas, as quais pudessem clarear minha visão tão opaca. Com os olhos de sua alma avançada e humilde fixados no infinito, parecia entregar-se a uma prece. Após alguns segundos, olhou-me detidamente e falou de uma forma branda, mas tão grave que tive a impressão de estarmos isolados acusticamente em uma bolha, longe dos sons que provinham da barraca ali tão perto. Disse-me ele: “Erasmo, olhe para minha barraca. Ela está lotada de gente. É uma festa muito bonita. Agora, olhe para esta onde estamos. Ela está a poucos metros da minha, mas está vazia (de fato, apenas duas mesas estavam ocupadas, incluindo a nossa). Eu não posso me sentir totalmente bem dentro daquela festa, se ao olhar para o lado vejo que outro barraqueiro não tem a mesma oportunidade que eu. Eu gostaria que a dele, também, estivesse do mesmo jeito. Isso me deixaria feliz. Mas a dele não está. Assim, consumindo em sua barraca, ao menos entrará algum dinheiro em seu caixa e a sua noite acordada não terá sido tão em vão. Além do mais, estamos vendo toda a festa daqui…não estamos?”. Em seguida, bateu em meu ombro e pediu que o garçom trouxesse um “tiragosto”. Naquele instante, foi como se eu estivesse diante de uma dessas criaturas ascéticas, que só vemos nos filmes, ou ouvimos nas histórias que nos contam a fim de que não desistamos da Humanidade (muitas das quais, “puro marketing”, representando a eterna luta humana pelos nobres ideais). Senti como se um raio de luz penetrasse em minha alma e apenas sorri para ele, meneando um pouco a cabeça, como se estivesse diante do inacreditável; como se estivesse diante de uma das mais raras obras do Criador; de algo espetacularmente diferente de tudo que minha pequena alma já vira. Como explicar alguém em quem você pode confiar totalmente? Como descrever alguém que não precisa lhe dizer que é seu amigo, porque tudo que faz torna isso mais inequívoco, ainda? Que não tenta lhe comprar com falsas promessas e que cumpre aquelas que faz? Alguém que não precisa se autopromover, que não possui cartazes distribuídos pela cidade nem vive espalhando cascas de banana na vida dos outros? Escolhi essa grande figura para dedicar tal homenagem porque, com maior freqüência no passar do tempo, me pego cada vez mais cético quanto à Humanidade. Pego-me concordando com meu outro amigo, Renato, para o qual a única coisa realmente importante para o ser humano é o estômago, o que nos torna uma espécie “estomacêntrica”, para a qual tudo é justificável: das guerras às mudanças ideológicas de conveniência; das pequenas às grandes traições (se é que se pode graduar uma traição!). A vida é mesmo irônica (ou Vino a tornou assim?)! Lembro-me de como se deu nossa aproximação. Eu fora eleito presidente da Associação dos Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas, em 1995, e carregava umas idéias “socializadoras”. Uma delas, essencialmente polêmica, era a fixação de um determinado número de mesas e cadeiras por barraca, a fim de que os grandes estabelecimentos não acabassem ficando com toda a clientela da praia, enquanto os menores sucumbiam. Acreditava – em minha tola defesa pelos “mais fracos” – que aquela medida, aliada a algumas outras, evitaria o colapso econômico que se avizinhava dos barraqueiros da Praia de Ipitanga. Logo na primeira assembléia convocada para discutir o assunto, ele apareceu para contestar aquela idéia economicamente incômoda, ao lado dos “graúdos” da praia. Confesso que tive vontade de mudar a pauta ao ver tão pesada “Tropa de Elite”, pronta para pedir meu impeachement, mas ainda acreditava, incondicionalmente, em “bandeiras coletivas” e fui até o fim com a proposta. O clima ficou tenso e resolvemos transferir a discussão para outra oportunidade. Para minha surpresa, no dia seguinte, ele me procurou em minha barraca. Achei que ia me dizer uns desaforos. Mas ele me disse que estava ali para apoiar minha proposta. Que parara para pensar e chegara à conclusão de que eu estava certo. Considerei-o mais louco que eu. Como o dono de um estabelecimento que podia ter duzentas, trezentas mesas na praia poderia concordar comigo? Não sei responder. Perguntem a ele, quando puderem. A única coisa que sei é que ele me cativou. Para sempre! Obrigado, Minervino Santana Neto! Você não precisa de meus votos de Feliz Ano Novo. Você é que torna feliz todo novo dia! Erasmo 30/12/2009

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2 Responses to “MINERVINO, UM MILAGRE DA NATUREZA HUMANA”


  1. 1 ARLI SOUZA 06/01/2010 às 21:17

    Erasmo a amizade é um sentimento sublime, puro e verdadeiro, para possuí-la não é preciso ser rico nem pobre, ter posses ou não. A Amizade é um dom, sentimento nobre que une as pessoas, sinal de confiança integra e recíproca, sem ela não há humanidade, sem ela não há o mundo, pois tudo na vida se origina de uma amizade, mas ela exige um item muito importante, ela tem que ser verdadeira, integra e pura, caso contrário, não há amizade.
    E que sorte a minha ter um amigo como você, sorte maior pertence a MINERVINO, que pode ter a sua amizade, além da sua admiração e a linda homenagem, que fizeste para o amigo em questão.
    Segue aqui meu forte abraço e a certeza de que você é uma grande pessoa.
    Adoro você!

  2. 2 Maísa Santos 10/08/2010 às 11:03

    Primo querido, que linda homenagem você fez para Minervino ou Vino, como o chamamos carinhosamente. Realmente, concordo com você quando fala da simplicidade e humildade, que são características tão claras e pertinentes dele.
    Foi através de você que o conheci, e sempre o achei uma pessoa fantástica, extensivo a Heleni, sua esposa.
    É como dizem “nada acontece por acaso”, e se vocês se encontraram para celebrar essa linda amaizade, rendendo uma homenagem maravilhosa da sua parte, é porque estava escrito nas estrelas.
    Parabéns por essa sua capacidade de escrever com tanto sentimento, e USUFRUA o máximo que puder, e até quando puder, de amizades verdadeiras como estas.
    Você um ser ímpar na minha opinião, por isso se torna uma pessoa admirável por onde passa, deixando sempre marcas boas.
    Um grande beijo da prima que é sua tiete
    MAÍSA


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