PROMESSAS DE ANO NOVO – I

Renato (nome fictício de um grande amigo), enviou-me e-mail com o seguinte teor:

“Caro Amigo Erasmo. É madrugada e não consigo dormir. Estou aproveitando para “organizar as coisas”, afinal, um novo ano aproxima-se. Mas não sei por onde começar e acabo sentado aqui, em frente ao computador. Que fazer, então? Dirijo-me aos amigos…

Há tanta gente que eu gostaria de homenagear, agradecer ou mesmo dizer: “Grande FDP é/foi você!”. Tanta gente que deixei me fazer sorrir ou me fazer chorar; gente que me deu rasteira e ensinou-me a não mais vacilar; gente que me conduziu pela mão, com todo cuidado, e mesmo assim eu sequer mandei uma mensagem, depois, agradecendo pelo que fez por mim (quanta gente deve estar querendo me dizer, também, que fui/sou um grande FDP?!).

Perdoe-me, gente, se puder! Não tenho condições de procurar me redimir, agora! Não posso parar, agora, para aprender a jogar dominó com você sob a sombra de uma amendoeira, às quatro da tarde. Invejo-o(s) vivendo em seu tempo, conversando amenidades na porta da barbearia, “decidindo” a política sob o “Pé-do-Oiti”, assistindo impassivelmente ao trânsito que se “sãopauliza”, como uma serpente pesada e irritada, arrastando-se pelas ruas da cidade: o Século XXI chegou sem avisar. E inaugurou a era dos financiamentos a longo prazo para bens móveis…ou semi-móveis, como os automóveis…trocadilho barato, esse!.

Perdoe-me por não lhe dar a atenção devida quando me diz que a cidade está explodindo, que estão nascendo prédios demais sem que a infraestrutura seja alterada; que a Rua São Jorge alaga quando chove, mas, mesmo assim, estão sendo construídos dois espigões no ponto mais crítico daquelas imediações. Não lhe pergunto o que quer que eu faça. Sei o que pode me responder. E sua resposta pode me sensibilizar. Contudo, é melhor que não!

Perdoe-me por apenas concordar com você que obras e mais obras estão sendo construídas às margens do Rio Sapato, destruindo-o, estrangulando-o, a cada minuto, sem que os poderes constituídos façam alguma coisa para impedir. Apenas divirjo, um pouco, quando me falas em obras ou atividades clandestinas. Mas já nem sei se devo discordar, tentando lhe mostrar que clandestino é aquilo que é feito às escondidas. Então, como chamar algo que é feito às claras de clandestino? Não soa incoerente? Deixa prá lá. Foi só uma recaída de conscientização. Mas isso passa! Melhor seguir meu caminho com a cidadania enfiada entre as pernas.

Agradeço, de coração, a todos que me mostraram que o tempo de levantar bandeiras esvai-se; que só o que existe entre a boca e o intestino é o estômago (eu acrescentaria: e, pelo lado de fora, o umbigo!). Confesso que essa constatação empobrece minha visão da Humanidade. Mas, devo render-me, pois essa é (ou deve ser) a visão correta. Eu preciso aprender a conviver com a democracia, afinal, a maioria é que vence!…apesar de continuar achando que nem sempre vencer significa ganhar.

Deus do céu! É tanta gente boa prá dizer “muito obrigado!”. Mas já são quase três da manhã! E eu aqui divagando com tanta coisa ainda por fazer.

Preciso ajustar meu tempo à vida e vice-versa. Não à vida que foi ou à que será, mas a essa agora: concreta, pragmática, tão convencedora quanto confortável.

À essa, estampada nas dezenas (centenas, milhares…) de outdoors espalhados pelas ruas, cheios de beleza e de engenhosidade – sejam eles de propaganda instititucional ou comercial – todos intensos e veiculadores das verdadeiras realidades.

À essa, que me encanta pela tevê, provando-me “por A mais B” que as realidades não são as que vejo na Saúde, nem na Segurança ou Educação públicas. O mundo mudou e eu não o acompanhei. Não mais importa essa dimensão à qual posso sentir o cheiro e o ruído (cheiro de gente apodrecendo nos corredores dos hospitas, estampidos de tiros que me fazem esconder sob a cama). O mundo mudou. Agora, é de uma virtualidade magnífica. E os profissionais mais bem-sucedidos são aqueles que conseguem transmutar essas bizarras realidades naquelas dos outdoors, da tevê, das revistas. Isso, sim: o “Admirável Mundo Novo”…prometo tentar admirá-lo neste Ano Novo.

Preciso aprender a dançar conforme a música, amolecer essa junta enferrujada pela análise social.

Prometo que um dia tentarei aprender a jogar dominó e a acompanhar as tabelas dos campeonatos de futebol. Prometo que tentarei aprender a concordar com a maioria. Prometo tentar tornar-me mais sociável, participando de mais churrascos e de menos reuniões comunitárias.

Ajudem-me, por favor! Meu visto temporário de extraterrestre está prá vencer e eu não quero voltar para aquele planetinha…

Perdoe-me, Saint Exupéry! Quero ficar por aqui.

I can!

Renato”

Não importa o que lhe respondi. Apenas pedi-lhe que me autorizasse a publicar.

Renato, Madrugada de 15/12/2009

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