A ÚLTIMA (E ÚNICA) FOTO

 Em meio à profusão de e-mails diários que entupiam sua caixa de mensagens, Renato identificou um de sua amada. Apesar de toda evolução tecnológica, o ser humano continua o mesmo em termos de sentimentos e de expectativas. As mesmas emoções o perseguem desde o início. Uma carta que poderia levar meses atravessando oceanos até chegar ao seu destinatário, e que causaria um tremendo rebuliço emocional, atravessa, agora, o planeta em uma fração de segundos. Mas a Humanidade é a mesma quando o assunto é emoção. E só perde essa característica quando morre…ou deixa de viver.

Com o coração acelerado, esqueceu todas as demais mensagens e abriu aquela única que lhe interessava no momento. A velha escala de valores: emoção em primeiro lugar. Havia notícias profissionais, confirmações de agendas, assuntos “racionalmente” importantes clamando por sua atenção, mas tudo seria preterido naquele momento.  Será que um banqueiro inglês do século XIX optaria por atender primeiramente a um cliente importante ou preferiria abrir a carta perfumada da amante, que fora enviada do outro lado do Globo? A resposta seria a mesma duzentos anos depois.

Mas a razão assistia à emoção de Renato. Paradoxal? Claro que sim. Claro que não. Afinal, qual outra criatura sobre a face terrestre carrega tal marca? Sim. Era racional que se entregasse à sua emoção. Afinal, os contatos oriundos dela estavam cada vez mais raros. Isso não é racional? Psicólogos poderiam achar que não…quer dizer, dentro dos seus consultórios, podem pensar assim. Fora deles, nada mais são que espécimes da mesma raça humana. É possível que achassem isso racional, também. Ou que sequer tivesse a menor importância.

A conexão pareceu-lhe uma inimiga declarada: aumentava sua ansiedade, arrastando-se de uma página à outra. Bateu impacientemente com a palma da mão sobre a mesa. Lembrou-se das lições de informática: “Software é aquilo que a gente xinga! Hardware é aquilo que a gente chuta!”. Naquele momento, não era uma técnica de memorização divertida. Teve ímpetos de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quantas cartas derreteram-se em alto-mar, naufragadas juntamente com os navios que as carregavam, atacados e destruídos por piratas? Quantas palavras quentes derreteram-se nas águas geladas e silenciosas dos oceanos, deixando seus destinatários sem saber dos sentimentos dos entes amados?

Finalmente, abria-se a janela daquele mundo virtual, recém-criado. Tão evoluído, mas não livre dos piratas e de suas pilhagens. Não livre da solidão dos marinheiros. Não livre da distância. Não livre dos naufrágios e do medo de chegar.

Havia uma foto dela. Curiosamente, não tinha muitas fotos dela. Pelo menos não cedidas por ela. Possuía algumas feitas a partir de celulares, que ele mesmo tirara em momentos de descontração, assim mesmo sob seus protestos. Mas agora, eis que recebia uma foto por e-mail. Era uma foto especialmente preparada para ele. Sua amada estava mais bela que em qualquer outro momento. A roupa acentuava-lhe as curvas do corpo. Aquele mesmo corpo que o transportava para outras dimensões, que o fazia emocionar-se com a simples visão a cada vez que o via, fosse vestido, bailando em uma rua de camelôs, em plena tarde ensolarada de Niterói, ou nu, deitado, aguardando febrilmente o seu contato sobre a cama. Brilhava. Carregava um indecifrável sorriso (“Certamente” – pensou –  “Leonardo da Vinci ratificaria essa observação”), dando a impressão de que realmente estava ali, diante dele, tridimensional, real, exalando seu cheiro. Era, realmente, a foto mais bela que já vira. E a única que ela lhe enviara, apesar de tanto tempo juntos. Mas era também a última. Não havia uma única palavra no e-mail dizendo isso. Nem dizendo qualquer outra coisa.

Apenas havia, com os braços envoltos em sua cintura, abraçando-a por trás, outro homem.

Renato deixou que o oceano o engolisse, sem se debater. De olhos abertos, foi afundando devagar, olhando a foto acima dele, que boiava na superfície e ficava mais longe, enquanto seu corpo descia naquelas águas gélidas. Não teve a sorte de ser atravessado pela espada de um pirata, mas ainda ouvia seus urros e o tilintar das armas.

Não teve tempo de ver a foto desmanchar-se. Sua alma partira antes disso.

Resgatei-o algum tempo depois. Estava debruçado sobre a mesa de trabalho. A tela do e-mail ainda estava aberta. Não precisei perguntar-lhe o que acontecera. Conhecia aquela intensa e tumultuada história. Era seu confidente. Fechei a página para que os outros colegas não a vissem. Por alguns segundos fitou-me com os olhos marejados. Depois os enxugou e sem nada dizer recomeçou a trabalhar.

Mas não era mais o Renato que eu conhecera. Aquele outro morrera. Restara esse, sem alma, que deixara de viver a partir daquele momento. Morto, mas livre da dor.

Livre da vida, livre das cores…como se tornou aquela foto boiando na superfície do quase-infinito oceano. Aquela última (e única) foto que dela recebera.

Erasmo 06/12/2009

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2 Responses to “A ÚLTIMA (E ÚNICA) FOTO”


  1. 1 Tatiana 14/12/2009 às 20:08

    Temos um blogueiro (escritor) desconhecido??
    Você não avisa do blog?
    Coisa boa descobrir isso!
    ADOREI

  2. 2 erasmoadelino 14/12/2009 às 21:40

    Obrigado!

    Mas a história é a seguinte: um dia um grande amigo me perguntou, após ler um texto que fiz, se eu possuía outros. Encabuladamente, respondi que apesar de ter escrito dezenas de outros, simplesmente não os possuía: perdera alguns manuscritos durante mudanças de residências e uma boa parte desaparecera do mundo juntamente com um “winchester” e o técnico de informática que se propôs a consertá-lo. Aquele amigo aplicou-me uma reprimenda bastante severa e nada pude responder. Só então fui entender que existia um valor naquelas fileiras de palavras (o qual, mesmo sem eu ter a capacidade de mensurar, agradava a alguém). Então, surgiram os blogs, que no meu caso, servem de arquivos virtuais, sem maiores pretensões. Ah! Hoje, guardo cópias noutros meios, também! rsss. Bjs


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