AS MANHÃS NÃO SÃO MAIS AS MESMAS – Memórias de “Um peixe fora do ninho”

Ela surgiu da mesma forma que desapareceu: repentinamente. Veio do passado. Um passado de poucas referências. Aliás, de uma única referência: um sorriso integral dentro da moldura da memória.

Para minha alegria – como um presente dos deuses – passei a vê-la todos os dias. Do passado de uma única referência, emergia e delineava-se um belo e imenso sorriso em forma de gente. E isso preenchia de uma forma suave e quase imperceptível minhas manhãs.

Era tão suave que eu próprio não me permitia mover-me. Temia desmontar aquele quadro tão belo. Não, não era o respeito pelas instituições sociais. Não me importava ser ela proibida. Não eram aqueles seus rebentos – belos, inocentes, felizes com seus sorrisos estampados em uma tela de computador – que tolhiam meus sentimentos e movimentos. Era nada mais que o efeito paralisante do fascínio por algo intocável (ou que não deveria ser tocado).

Meu olhar fazia festa com aquela chegada alegre feito uma manhã ensolarada e cheia de pássaros. Minha alma fazia festa. Todo meu ser fazia festa diante daquele espetáculo, que parecia diferente e mais belo a cada dia. Ou melhor: que era o próprio dia.

E aquele Dia Sorridente acomodava-se ali bem perto de mim. Onde um simples estirar de braço tocaria seus raios, os quais escorriam pelo encosto da cadeira, balançavam e brilhavam. Ali pousava todos os dias, aquela graciosa e linda pluma.

Por quanto tempo existiu esse paraíso? Não me recordo. Agradecia aos deuses todos os dias pela minha felicidade.    

Porém, esqueci-me que os deuses – desocupados e despreocupados com os sentimentos humanos – costumam pregar peças.

Um dia a cadeira não foi preenchida. Outro dia depois. E outro. E mais outro. E um grande vazio habitou aquilo que me parecia um universo só meu.

Uma pequena lágrima tentou brotar desta alma cansada. Troquei-a por um sorriso. O que é a vida senão uma sucessão de instantes que vão ficando para trás? – consolei-me.

 O que é ela nada mais que uma sucessão de ações e de omissões? De canções que não foram feitas, de sorrisos que clarearam as manhãs, de intenções veladas, de silêncios atordoantes, de desejos impossíveis?

 Os deuses são uns babacas – nunca entenderão o que é alma humana, muito menos a minha  (que sequer entende o que é ser humano). Tampouco eles entenderão o que a faz interromper tudo para escrever isso…

 Confesso que eu também não!

 

 

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