HISTÓRIAS DE MENINOS E SEUS SONHOS

LITORAL TÁXI – Um sonho. Várias realidades.

 

Quando eu era criança, gostava de fazer caçambas de brinquedo. Eram réplicas dos também denominados caminhões-basculhantes. Aliás, deve ser mesmo o nome mais apropriado para aqueles veículos de transporte de materiais, nos quais inspirava-me para criar minha frota. Fabricava-as com latas de óleo Salada. Essas eram retangulares àquela época. Tinham listras pretas e amarelas. Cortava-as ao meio e dava-lhes as características de uma cabine de caminhão: aberturas na frente, dos lados e atrás, representando o pára-brisa, as janelas das portas e a escotilha traseira, através da qual o “caçambeiro” monitorava o movimento do basculhante. Esse, também era feito da lata do óleo comestível. Só que era aberta em uma de suas faces mais largas e a parte da lâmina continuava presa em uma das extremidades, para se transformar na aba, em forma de cantoneira, que se projetava sobre a cabine (ou boléia, como alguns a denominam. Na verdade, nunca entendi prá que serve mesmo aquela aba sobre a cabine!). Essas duas peças (cabine e basculhante) eram fixadas sobre um pequeno pedaço de madeira, com pouco menos de trinta centímetros de comprimento. Depois, montava o conjunto sobre um sistema de pneus e eixos, que nada mais eram que pequenos círculos feitos da borracha de velhas sandálias Havaianas, presos em grossos pedaços de arame.  Depois de prontas, enchia-lhes o basculhante de terra e punha-me, orgulhoso, a puxá-las por um barbante pelo quintal, que em minha imaginação era uma estrada acidentada, cheia de ameaçadoras poças de lama e traiçoeiras curvas. Quando havia algum monte de areia ou outro material de construção dando sopa, era dele que se originava a valiosa carga; mas isso, normalmente, resultava em confusão, porque alguém sempre implicava com aquela operação, a qual simbolizava para mim, a construção do progresso. Achavam que eu estava estragando o material. “Por que os adultos não enxergam o óbvio?” – perguntava-me.

 

Hoje, decorridos mais de quarenta anos daquelas ingênuas experiências; mais de quatro décadas de sonhos e desilusões, às vezes ainda me pego fazendo a mesma pergunta: “Por que os adultos não enxergam o óbvio?”. E o pior: continuo sem a resposta. Pior, ainda: hoje, também sou adulto.

 

***

No mês de dezembro de dois mil e quatro, após perder um emprego na Prefeitura de Lauro de Freitas, fui ser taxista nessa mesma cidade. Era mais uma rica experiência que se incorporava à minha já eclética trajetória. Não demorei a perceber que uma tremenda desunião reinava entre aqueles profissionais e, junto com ela, uma total falta de perspectiva de dias melhores. A maior parte deles passava o tempo jogando dominó, aguardando que algum cliente caísse do céu. Poucos possuíam uma carteira de clientes que lhes proporcionasse um sustento digno. Para completar o quadro, a liberação de novas licenças parecia ameaçar a sobrevivência do pseudo-sistema de táxis da cidade. Afinal, a frota, simplesmente, dobrara de uma hora para outra. E isso acabou se transformando em uma bandeira política falaciosa (como muitas e muitas outras): a Prefeita eleita naquele ano de 2004, ameaçou cassar os alvarás concedidos pelo gestor anterior. A Administração Pública alegava uma série de falsos motivos. Todos, políticos, diga-se de passagem (depois ficaria provado que o número de novos táxis representava uma  conquista da sociedade). Dezenas de pais de família viram-se, repentinamente, sem saber o que fazer com aqueles carnês de financiamento de veículos, ainda tão cheios de folhas a serem pagos. Sinistros compromissos. O que era um sonho tornara-se um pesadelo.

 

A vida ensinou-me a lutar pela sobrevivência, a qual nunca foi muito fácil para mim. Nunca nada veio de mão beijada. Sempre resultou de muita luta, de muito suor e até de muitas lágrimas. E se esse sentimento de ter direito à dignidade tornava-me solidário até com quem nem conhecia, o que dizer quando se tratava de quem conhecia? Aquela era minha nova categoria profissional, meus companheiros de jornada. E eu também estava no mesmo barco que eles. Foi assim que durante todo aquele ano de 2005 travamos uma batalha com o Poder Público Municipal e, no início do ano de 2006, conseguimos a renovação daqueles alvarás. Nada mais justo. Porém, nada mais difícil de provar, como toda obviedade.

 

Naquele período de luta, consolidei algumas amizades. O companheiro Loxa foi uma delas. Juntos, disponibilizamos centenas de horas pela causa dos “novos taxistas”: reuniões, manifestos, correspondências e apelos. Qualquer hora, qualquer lugar. A campanha era full time. Nenhum vereador levantou nossa bandeira. Pelo contrário, alguns até se colocaram contra nós. Na verdade, queriam os alvarás para seus aliados. Outros a quem procuramos, deram respostas evasivas. Fugiram. Esconderam-se. Ironicamente, acabaram tendo apoio, na última campanha, de alguns daqueles a quem eles mesmos deram as costas no momento em que mais precisavam. Irretocável é a máxima: “O povo tem os governantes e representantes que merece!”. Será que também essa conversa de que o povo gosta de ser sacaneado é verdade? Reluto em crer nisso.

 

Bem, de qualquer sorte, mesmo sem apoio político, nossa luta não foi em vão.

 

E dela nasceu o sonho de formar uma cooperativa.

 

E assim como as palavras do poeta-maluco-beleza, Raul Seixas, vimos o gérmen da Litoral Táxi começar a romper o solo do ceticismo, já castigado pelas experiências fracassadas anteriores, já petrificado pelas chuvas ácidas dos movimentos político-partidários… “Sonho que se sonha só é só um sonho que sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.”.

 

Aos poucos, novas forças foram se juntando. Muitos declaravam abertamente que isso não funcionaria. Diziam que os taxistas tinham “cascavéis” nos bolsos e por isso neles não meteriam a mão para financiar uma empreitada dessas. Outros relembravam as experiências negativas de antes. Outros, ainda, alegavam a desunião dominante entre a classe. Mas esses argumentadores foram sendo convencidos (o que é mais importante que termos vencido-os). Novas e importantes amizades, como Vladimir, Railson, Joca, Zito (apenas para citar algumas), foram construídas nesse período.

 

No dia 13 de dezembro de 2006, aquela semente – que na verdade fora plantada dois anos antes nos campos de luta daquele anterior e tão diferente dezembro de 2004 – rompia a terra e se tornava realidade. A Litoral Táxi botava sua cara no mundo, para mudar, definitivamente, a História do sistema de táxis de Lauro de Freitas; para provar que o cooperativismo pode dar resultados positivos; para mostrar que sonhos – se trabalhados com determinação – podem se tornar realidade.

 

Lembro-me que um dia eu trafegava na Av. Paralela e vi, à minha frente, colado no vidro traseiro de um táxi de Lauro de Freitas, o adesivo da Litoral Táxi. Era o primeiro que eu via circulando. Emocionado, liguei para Loxa e tentei lhe falar daquela experiência fantástica, única, indescritível. Ele também se emocionou. Naquele momento, lembrei-me da frota de caçambas de brinquedo, feitas de lata de óleo Salada, tão distantes no tempo. Lembrei-me das implicações bobas daquelas pessoas que não entendiam o que significava um sonho em ação e reclamavam das minhas caçambas espalhando seus materiais de construção.

 

Depois foram chegando novos veículos para a frota. E eu senti felicidade com aquilo. Apertei a mão de cada um daqueles que souberam aproveitar toda a força que a Litoral representava. Abracei-os com o coração em festa, porque aquela conquista também era uma conquista de cada homem e de cada mulher que ali estavam dia e noite cuidando para fazer da Litoral Táxi o que ela é hoje. Certa ocasião, narrando sobre essas experiências com a Cooperativa a uma pessoa, ela perguntou-me: “Você já disse isso a eles?”. “Sim! Já lhes disse! De todas as formas!” – respondi, cheio de entusiasmo.

 

Eu não sonhei sozinho esse sonho. Por isso ele virou realidade. Exceto aqueles que só querem carregar maldade e traição no coração, muitos sonharam juntos esse sonho: as operadoras (principalmente Telma e Tatiana, que nos acompanharam desde o “porão”); os associados que trabalharam certo; os clientes, que acreditaram nesse trabalho tão simples, mas que, até então, não dera certo dentro de Lauro de Freitas. Os novos amigos que foram chegando como, por exemplo, Nilton e mais outros e outros, além das novas operadoras.

 

Mas quantas coisas óbvias tivemos que desvelar, porque ali estavam e não eram vistas, durante esse período?

 

– Que a união faz a força! Que uma andorinha só não faz verão! Que não adianta ir à Igreja e fazer tudo errado/você quer a frente das coisas olhando de lado! Que não adianta apenas falar: é preciso fazer! Que nada se constrói sentado lamentando uma queda!

 

E tantas e tantas outras obviedades! Tão óbvias, mas tão difícil de serem entendidas.

 

 

 

E quantas outras ainda precisamos desvelar?

 

– Que não se apaga uma história para começar outra. E que cada história, cada parcela do passado, tem que ser respeitada.

 

– Que não se é dono de nada nessa vida. Talvez, com muito custo e disciplina, possamos ser donos dos nossos pensamentos, apenas isso.

 

– Que ser “capitão” ou “comandante”, simplesmente por causa de estrelas no ombro ou de postos, não significa liderar. E que, nessa nova era, o que as instituições e os empreendimentos precisam são de líderes e não de chefes;

 

– Que as molecagens feitas através do rádio apenas queimam todo um trabalho feito com seriedade;

 

– Que deixar de cumprir com as obrigações financeiras para com a nossa Cooperativa, apenas enfraquece-a;

 

– Que só há um inimigo capaz de derrotar a Litoral Táxi. E ele se chama: Litoral Táxi!

 

***

 

Eu cresci. Amadureci (prá não dizer envelheci: é mais elegante e menos traumático…rsss). Nem sei se existe mais o óleo Salada. Até as crianças mais pobres de hoje já podem brincar de carro sem se sujar: pilotam máquinas virtuais ou matam adversários virtuais nas lan houses!  Não sei se isso pode construir idealistas e realizadores. Talvez, sim! Talvez, não!

 

Eu só sei que a Litoral foi um sonho que se tornou realidade. E que pode ser uma realidade ainda melhor: basta conseguir ter a capacidade de imaginação das crianças; basta enxergar o óbvio como elas, simplesmente, enxergam; Basta ter a capacidade de continuar sonhando e correndo riscos…mesmo depois de ter cortado o dedo na lâmina da lata de óleo…mesmo depois da bronca por ter espalhado a areia do vizinho…mesmo depois que o pneu da caçamba, feito de borracha de sandália Havaiana, “furou” e a fez tombar…mesmo que ninguém mais perceba que aquela trilhazinha passando por dentro de uma mera poça de lama é uma grande estrada a ser construída para o futuro.

 

 

Erasmo

 

Primeiro Presidente da Litoral da Táxi – Cooperativa de Taxistas de Lauro de Freitas (Jan/2007-Jan/2009)

 

Madrugada de 10 de agosto de 2009.

Anúncios

1 Response to “HISTÓRIAS DE MENINOS E SEUS SONHOS”


  1. 1 Cíntia 14/09/2009 às 18:09

    Olá Erasmo,nem sei se ainda lembra de mim,massss em todo caso te parabenizo pelo blog.
    Fiqueiencantada com suas Historias de vida. MUITO BOM MESMO!!!!
    Abraço e felicidade sempre


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s




Anúncios

%d blogueiros gostam disto: