PÓS-ÉDEN XXI – Capítulo 3

– Não vou ficar nem mais rica nem mais pobre – respondeu secamente minha vizinha.

– O problema não é este, mas sim o péssimo hábito que está ajudando a manter nesta criança – retrucou o interventor. Notava-se que tentava controlar o tom da voz. Aparentava possuir a mesma idade da companheira e os muitos fios de cabelos brancos na cabeça e na barba pareciam exigir um certo ar de respeito, quem sabe por conta da idade que já vivera. Sua companheira fez um movimento quase que imperceptível com os lábios, pedindo-lhe que parasse. Porém, um cidadão de abdome proeminente, sentado no lado oposto ao nosso, carregando no colo uma imensa pasta zero-zero-sete, entrou abruptamente na conversa:

– O dinheiro é dela, seu canguinha! Ela faz o que quiser com ele!

O sujeito que criticara a velha senhora ia revirando-se para ver quem era o recém-chegado – e não convidado – participante do diálogo quando todas as atenções foram atraídas para o lado de fora do ônibus.  O que se passou em seguida foi muito rápido, quase que surreal para quem – como eu – nunca havia presenciado uma cena daquelas.

O ônibus parara em um ponto. O garoto que há pouco estivera pedindo dinheiro acabara de ser arrastado de dentro do veículo por um homem que usava um capacete de motociclista. Tinha uma arma na mão e apontava para a cabeça do pedinte. Um revólver, ou talvez uma pistola, não sei (viria a ter essa mesma dificuldade de descrevê-la durante o interrogatório policial logo depois, quando um dos agentes comentou de forma irônica, inclusive, que era estranho alguém vivendo nesta terra selvagem não saber a diferença entre um e outro). Havia outro homem sentado em uma moto, a menos de dois metros da frente do ônibus. Ouvia-se o barulho  nervoso do motor, provocado pelas acelerações do piloto. Este gritou:

– Adianta o lado, Cara!

– Vumbora, otário! Cadê a grana, traficantezinho de merda? Passa logo! – berrava o outro enquanto apontava a arma sob o queixo do garoto.

Durante alguns segundos – que pareceram uma eternidade – a platéia assistiu atônita e silenciosa o ato – apenas mais um ato – do espetáculo da bárbarie urbana. O garoto deixou cair sobre o chão as poucas moedas e cédulas que possuía. Tentava expor os bolsos furados. Já não era mais aquele garoto que me agradecera pela esmola forçada e, ao mesmo tempo, ameaçara veladamente o casal à minha frente. Não era mais um ator fingindo gratidão. Tampouco era uma criatura raivosa resmungando sobre o que achava uma mesquinharia. Era apenas um garoto aparentando 12 anos de idade, suspenso a meio metro do chão, com uma arma engatilhada debaixo do queixo, com uma dívida de drogas em aberto.

Mas não era só ele que se encontrava paralisado. Naquela ínfima fração de tempo, toda Humanidade estava paralisada, devedora do eterno, incompreensível e impagável tributo cobrado através do apertar de cada gatilho, cobrado de Adão, Eva, Caim e seus descendentes; estava suspensa pelas mãos da violência, tão feroz e tão tipicamente humana, enquanto um cano frio impedia-lhe os movimentos e o grito. A tão poderosa Humanidade, subjugadora das demais espécies de seres vivos; construtora de engenhos que tornam inexistentes as distâncias; criadora de universos virtuais, estava ali, refletida naquele corpo suspenso no ar, indefesa, sempre sob a mira de alguma coisa mais forte e mais incompreensível.

O silêncio estilhaçou-se como uma fina taça de  cristal atingida pelo som agudo de um grito. Uma adolescente com um piercing no nariz não se conteve ao imaginar que o homem detonaria a cabeça do garoto. O cano da arma, agora, estava sendo pressionado contra sua testa molhada de suor. O homem berrava nervosamente. Um outro passageiro bradou, num misto de ordem e desespero:

– Arrasta esse carro, motorista! Tá esperando o quê?

– Não pode arrastar! É uma criança! Chama a polícia! – gritou outra passageira.

O motorista engrenou a marcha bruscamente e começou a se deslocar. O Bonde da História não pode parar. A cada segundo, em alguma parte habitada pela Humanidade uma atrocidade é cometida, por essa mesma raça que se horripila quando assiste um documentário sobre a vida dos animais selvagens; que ergue aos mãos para o céu agradecendo por ser gente ao assistir um leão dilacerando e devorando sua presa. Mas que diriam os leões se tivessem a capacidade de assistirem documentários sobre nosso dia-a-dia? Odeiariam Noé! 

O piloto montado na moto percebeu a movimentação do ônibus e parece ter pensado que este ia ao seu encontro. Sacou uma arma e disparou dois tiros contra o veículo. O vidro do pára-brisa partiu-se em milhares de pedaços. A gritaria foi geral. Ouviu-se outro estampido na lateral do ônibus e, em seguida, o homem que estava imobilizando o garoto, passar correndo. Montou na garupa da moto e fugiram por entre os demais veículos.

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