PÓS-ÉDEN XXI

Eles viajavam no banco à minha frente. Já os vira antes, sabia, mas não tinha certeza de onde. O ônibus sacolejava e fazia um pouco de barulho. Ia vazio àquela hora da tarde, de forma que, mesmo sem querer, quem estivesse próximo poderia, como eu, ouvir a conversa do casal. Dizia ele:

– Às vezes penso que morrerei feito D. Quixote. Ou mesmo feito Policarpo Quaresma.

– São escolhas – respondeu ela. Seu tom era ameno, sem acusações. Respondia assim, como quem deita sobre o solo um pequeno fardo que carregava nos ombros.

Aprendera com o tempo a dar respostas curtas. Já não mais discutia usando  dezenas de palavras. Compreendera as arbitrariedades da essência humana. Herdara de Eva a culpa por enxergar primeiro e mais claramente que os homens. E o que deveria ser uma benção fora transformado em maldição. Sabia que os homens não suportavam pressões e, como herdeiros legítimos de Adão, denunciariam facilmente sempre seus cúmplices. Então, para que amar ou odiar através de tantas palavras? De que lhe adiantaria um imenso discurso analítico, questionando a obra divina nem tampouco a canalhice masculina?

– Crês, então, que se pode escolher como morrer? – perguntou ele revelando certa decepção diante da sucintez das palavras da companheira. Não percebia que por detrás da parcimônia do uso das palavras  escondia-se o revelador sabor da maçã.

Ela não internalizara a culpa pela expulsão do Paraíso (certamente, mais cedo ou mais tarde, Adão e Eva teriam que sair do Paraíso mesmo, pois a expansão imobiliária os faria buscar novas paragens. As restrições para a liberação de licenças ambientais diminuíram tanto a cada dia,  que paraísos naturais foram condenados à extinção). Mas, por outro lado,  cansara de por a culpa pelos próprios erros nos outros, principalmente sobre uma serpente condenada a rastejar eternamente e a quem teria que, também eternamente, esmagar a cabeça e aquela lhe ferir o calcanhar.

– Não sei responder. Mas parece-me que se pode escolher como viver.

(ora, mas vejam só: não é automática a gravação do rascunho? Deu um piripaque aqui na internet e eu perdi um pedação da narrativa…sem chance de retomar, agora! )

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