PÓS-ÉDEN XXI – Capítulo 2

Em uma das paradas, um garoto aparentando cerca de 12 anos de idade, vestido com roupas surradas, entrou no ônibus. Numa velocidade espantosa, colocou sobre o colo dos passageiros pequenos pedaços de papel, nos quais se lia o seguinte texto, reproduzido manualmente: “Mim ajudi. Sou orfão de pai e tenho 12 irmãos. Deus lhi págui”.  Quando deixou o último pedaço de papel, foi para perto do motorista e dirigiu-se aos passageiros pedindo que o ajudassem com qualquer valor. Passava a impressão de que  tinha gravado aquele texto, palavra por palavra.

– Não acho certo dar dinheiro a esses garotos – comentou, baixinho, junto ao ouvido da companheira, o cidadão à minha frente.

– Será que D. Quixote ou Policarpo pensariam assim? – retrucou a mulher, com um leve sorriso no rosto. Foi quando observei-a melhor, pois virou-se para trás, talvez para analisar a reação das demais pessoas. Deveria ter entre 45 e 50 anos. Os cabelos eram negros e curtos. As linhas do seu rosto eram firmes e bem acabadas. Podia-se enxergar as marcas do impiedoso tempo pincelando aquele belo quadro. Mas, ao invés de tirar-lhe a beleza, aumentava-lhe. Parecia que o tempo resolvera ser generoso com aquela mulher, tornando-a mais atraente. Não sei se a serpente também expulsa do Éden estaria disposta a ferir-lhe o calcanhar, mas, certamente, um monte de outras serpentes, dessas que se esticam durante horas nos salões de beleza sem muito proveito, não apenas se torceriam tentando alcançar-lhe o calcanhar, mas todo o corpo, a fim de destruir obra tão singular.

– Não viveram nesse tempo – atalhou ele.

– E o que viram a ponto de enlouquecer? Excessos de justiça social? Isso nunca existiu, meu nobre sonhador. Nunca! – parecia uma juíza proferindo uma sentença.

O garoto voltou recolhendo as esmolas. Alguns lhe davam moedas, outros, balbuciavam um “Deus vos favoreça” por entre os dentes. Os que dormiam e os que fingiam dormir, nada precisaram dizer. O casal à minha frente devolveu os papéis sem oferecer qualquer contribuição. Eu, por minha vez, acuado que me senti pelo olhar da senhora que viajava ao meu lado, a qual esticara sua oferenda quase que roçando por meu nariz, puxei umas moedas do bolso e a ele entreguei.

– Deus lhe pague! As misérias aí da frente é gente ruim. Se eu tivesse com um berro na mão, num instante passavam tudo. Vá com Deus. senhor! – disse-me, enquanto recolhia o papel ensebado pelo uso diário,  juntamente com as moedas que lhe dera.

– É melhor que estar roubando, não é, Moço? – indagou-me a senhora que há pouco convencera-me, com toda sutileza de seu olhar e gestos,  a dar meus trocados ao menino.

Eu ia responder – não sei se concordando ou não – quando o cidadão a quem eu observava, interviu na conversa que talvez nem tinha chegado a acontecer.

– A senhora pensa que está fazendo o bem, mas está fazendo é o mal – observou incisivamente meu companheiro de viagem.

(continua…)

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1 Response to “PÓS-ÉDEN XXI – Capítulo 2”


  1. 1 WinHome-JefersonJS 20/01/2009 às 12:49

    Você recebeu um meme. Mais informaçoes : [http://jefersonjs.wordpress.com/2009/01/20/1%C2%BAmeme-premio-dardos/]


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