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PROJETO ORLA – II – Não ao genocídio dos barraqueiros de praia

Ontem, 17/08/2010, estive presente na Audiência Pública sobre as barracas de praia realizada na Câmara de Vereadores de Lauro de Freitas. Melhor dizendo: na Audiência Pública sobre os Barraqueiros de Praia! Afinal, o que se está discutindo não é apenas o possível fim de uma estrutura física ou de uma atividade incentivada anos a fio pelo Poder Público em todas as suas esferas: o que está se discutindo é o possível genocídio de toda uma espécie que durante décadas proporcionou lazer à população, que gerou postos de trabalho e impostos para os cofres públicos, mas que agora é ameaçada de ser estirpada como se fosse um câncer maligno. Quais reais interesses estarão por detrás dessa perversa orquestração?

Genocídio significa “Crime contra a Humanidade, caracterizado pela tentativa de destruir um grupo humano”[1], seja ético, religioso, cultural ou qualquer outro que possua características próprias que lhes proporcione uma identidade. E barraqueiro de praia é uma espécie que possui sua própria identidade. Quem teve a oportunidade de ouvir a fala da barraqueira Fernanda, pode compreender o que significa essa espécie ameaçada de extinção. Ao ouvir suas palavras, senti uma emoção muito forte, pois, com uma maestria incrível, ela interpretou dois textos que escrevi: um, há cerca de dez anos e outro mais recentemente.

No primeiro, intitulado “Profissões: barraqueiro!”. escrito durante meu primeiro mandato como Presidente da Associação de Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas, eu mostrava que o barraqueiro de praia não exercia apenas uma profissão, mas várias profissões (por isso, no título, “Profissões”, no plural): comprador, vendedor, salva-vidas, psicólogo, meteorologista, babá de crianças, contador, jornalista, entre outras. Qual outra profissão agrega tantas outras profissões? E ainda assim: “aprendendo na tora”, no labor diário, sem alisar os bancos de uma faculdade?

No segundo, recentemente divulgado, intitulado “Projeto Orla I – A legalidade dissociada da realidade social”, eu questionava porque os barraqueiros de praia estavam sendo tratados como criminosos condenados com a pena de banimento, que é a retirada à força de um nativo de seu próprio território, em virtude de prática de determinado fato tido como criminoso. Não é isso que está acontecendo com os barraqueiros de praia (e com todos aqueles que vivem das atividades econômicas da orla marítima)? Expulsos, banidos, execrados pelos “donos do poder” sem direito à nada. Enfim, condenados à indigência e à mendicância, ao ingresso no tráfico de drogas, à verdadeira criminalidade.

A História da Humanidade tem mostrado que por detrás das ações de genocídio, quase sempre está o “todo-poderoso” interesse financeiro. No genocídio dos barraqueiros de praia, podem-se vislumbrar as várias faces desse interesse, como a especulação imobiliária e a futura instalação de meganegócios na orla marítima, entre outras facetas disfarçadas.

É a História da Humanidade se repetindo.

Mas, além de se repetir, agrega requintes de crueldade: pratica-se o genocídio dos barraqueiros sob o argumento da legalidade; as pessoas são banidas, sem direito à defesa e sem sequer saberem qual crime cometeram; sem direito à indenização pelos sonhos e investimentos perdidos. Promove-se um “faxinaço” no Patrimônio Cultural; tratam os barraqueiros como se fossem lixo; retiram-lhes tudo o que possuem e os expõem nus, despidos de qualquer dignidade, a fim de que tenham sua identidade desmantelada e possam ser exterminados sem dó nem piedade, como os piores criminosos da face da Terra! Genocídio do século XXI.

É como se o Poder Público tivesse adaptado um trecho de um discurso da odiosa “Doutrina Bush”: “Toda a nação, em todas as regiões, agora têm uma decisão a tomar: ou está conosco ou está com os barraqueiros”.

EU ESTOU COM OS BARRAQUEIROS!

NÃO AO GENOCÍDIO DOS BARRAQUEIROS DE PRAIA!

Lauro de Freitas-BA, 18 de agosto de 2010.


[1] Minidicionário da Língua Portuguesa, de Sérgio Ximenes

PROJETO ORLA – I A legalidade dissociada da realidade social

Primeiro, o inquestionável: a orla marítima brasileira precisava, há muito tempo, de uma reordernação. Alguém consegue discordar disso? Nem mesmo eu, que durante onze anos fui barraqueiro de praia. Agora, o questionável: até que ponto, efetivamente, se consegue alcançar o interesse público – fim último de toda estrutura governamental – com normas e ações que ignoram a realidade social? Essa pergunta eu faço como cidadão. E também como ex-barraqueiro.

Sem qualquer margem de dúvida, o trabalho técnico desenvolvido pelo Governo Federal, e disseminado entre os Estados e Municípios, visando a “fortalecer a capacidade de atuação e articulação de diferentes atores do setor público e privado na gestão integrada da orla”[1] é realmente de excelente qualidade. Da concepção à execução, passando pela indispensável fase do planejamento, poder-se-ia considerá-lo irretocável.

Contudo, apesar desse esmero técnico e da tão propalada integração entre os órgãos do governo, a qual proporciona ao leitor dos diversos textos que compõem esse projeto uma impressão de que tudo foi pensado, tal integração é limitada. Perigosamente limitada. Fundamentado tão-só e exclusivamente na “letra fria da lei”, o Projeto Orla ignora uma realidade social, econômica e cultural construída ao longo de décadas. Imagine que a orla marítima é uma linha viva, possuidora de dinâmicas próprias. Agora, imagine uma imensa borracha apagando-a sem qualquer cuidado com o que pode ser aproveitado.

O Projeto Orla poderia ser uma das mais espetaculares ferramentas para resolver o complexo de problemas que reina em nossa orla. Poderia. Não está sendo. Está cuidando apenas de um lado da equação social: patrimônio público, meio ambiente, entre outros elementos de exercício obrigatório pelo Poder Público. Sem dúvida, isso se faz necessário. Mas, de uma forma assustadoramente radical, deixa de lado o outro termo da equação social, no qual se encontram as pessoas que vivem da atividade de barraca-de-praia. Essas pessoas, apesar de não atuarem em atividades ilícitas, estão sendo tratadas como “foras-da-lei”. Sequer podem ser comparadas a criminosos sentenciados, porque esses possuem as prerrogativas constitucionais e legais de serem tratados como serem humanos, com a garantia de teto e comida diariamente (e não deveria ser diferente, pois são seres humanos). E quanto às pessoas que sobrevivem da exploração de serviços na orla marítima? Banimento. Essa é a pena que está lhes sendo imposta. E sem direito a teto e pão.

Diferentemente do que tenta (e até consegue) fazer parecer a própria máquina governamental e parte da imprensa menos atenta, essa pena não está sendo aplicada apenas pela “canetada” de um magistrado. Esse ato representa o resultado de múltiplas operações complexas anteriores a ele. E nisso reside um jogo perverso, que não deveria estar sendo levado a cabo pelo Poder Público. Nem tudo que é legal, é moral. E o Poder Público tem o dever de zelar pela moralidade administrativa. Parafraseando o dispositivo de um diploma legal: a Administração Pública não tem “que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto”.

Honesto, neste caso,  seria juntar todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), o Ministério Público, a sociedade civil organizada, o pobre-coitado que busca sobreviver licitamente como barraqueiro, garçom, cozinheira e tantos outros, e buscar estabelecer um diálogo franco, sincero e transparente como deve ser o da Administração Pública com os seus administrados em busca de uma solução (ou de várias) menos traumática(s). E, quem sabe até, construir proativamente pontes que ajudassem a se caminhar em direção à efetividade do direito ao trabalho embutido em nossa Constituição, a qual declara que a República Federativa do Brasil tem como fundamento, entre outros, os valores sociais do trabalho; que dispõe que a ordem social tem como base o primado do trabalho e que estatui que a ordem econômica funda-se na valorização do trabalho.

Curiosamente, arvoramo-nos (de forma correta, justa e humanitária) em campanhas para questionar as leis de outras nações, como essa contra a pena de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério, no Irã, mas usamos as nossas próprias leis para impossibilitar a sobrevivência digna de milhares de trabalhadores, sem lhes apresentar alternativas.

É mesmo motivo de orgulho saber que somos uma Nação que transcende seus laços de solidariedade para além de suas próprias fronteiras. Mas, para que esse orgulho seja completo, é necessário enxergar, perceber, sentir uma Nação que também cuida, com a mesma intensidade de sentimento, de sua própria gente; que não a entrega à indigência, à prostituição e ao crime organizado.

Sou plenamente de acordo em estarmos com a “casa em ordem” para quando abrirmo-nos para o mundo em 2014…mas sem sujeira escondida sob o tapete.

Por favor!

Erasmo. Ex-barraqueiro de praia e ex-presidente da Associação dos Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas (1997-2005)


[1] Um dos objetivos estratégicos estabelecidos para o Projeto Orla. Disponível em:  www.meioambiente.ba.gov.br/gercom/projeto_orla.pdf

Recomeços

Às vezes, mar calmo, horizonte próximo. Tudo certo. É o que pensamos.

Então, vem a onda. Gigante. Violenta.

E o horizonte se perde entre bolhas de ar. O mundo fica de cabeça para baixo.

O céu se foi com seu azul sereno.

Sobreviver já é o bastante. Já não mais interessam as gaivotas.

Já não mais interessam os golfinhos e seus saltos.

Apenas uma tábua de salvação basta.

Respirar sem engolir água.

Chegar até à praia mais próxima e chorar por ainda estar vivo.

Recomeçar.

Eu & meus 47 anos de idade

Pensei que iria estar desesperado quando este momento chegasse. Mas, tirando uma dorzinha-aqui-outra-ali; as falhas na memória de curto-prazo; a chegada de um ceticismo sutil quanto a quase tudo que vejo, ouço e até imagino; tirando um amor crescente à Humanidade por suas tentativas inesgotáveis de auto-superação e de se manter como a espécie designada pelo Criador para subjugar as demais – estando, porém, tão mais perto de Caim que de Abel – eis que chego aos 47 anos de idade, com a pressão arterial marcando 120 x 80 e uma pequena história de grandes paixões (ou de passionalidades, como queiram): paixão pela vida e pelas histórias de vida de algumas pessoas; paixão pelas causas (muitas delas, perdidas) e bandeiras (algumas rotas, desbotadas); paixão pela resistência às formas de opressão, às situações, fatos, pessoas, movimentos e ideologias que insistam em usar do poder para ferir, subjugar ou eliminar qualquer forma de liberdade responsável dessa rica e tão pobre Raça Humana, mas desconfiado quanto à sinceridade de algumas vozes que se erguem na pseudo-defesa desse direito elementar, principalmente daquelas inflamadas, proferidas por detrás de um microfone e disseminadas durante o café da manhã e o almoço.

Chego, ainda, carregando algumas idéias fixas, como essa de não querer arrancar o acento agudo da palavra “idéia”, apesar do acordo ortográfico que facilita a vida de quem escreve estar aí em plena vacation legis. Uma idéia sem acento – parece-me – não vai muito longe. Mas é apenas uma tola idéia fixa. As palavras não têm sentido, a não ser aqueles que lhe empregamos, de forma circunstancial. Chego com a idéia fixa de que os demais animais já atingiram a perfeição, enquanto nós precisamos transmitir, de geração em geração, os alfabetos e as taboadas, em salas de aulas, atormentando nossos descendentes, indefinidamente, até que um tempo chegue em que nosso código genético possa fazer isso automaticamente. Enquanto isso, precisamos gastar com consultores, assessores, construtores das mais diversas categorias, enquanto os castores constroem suas barragens sem diplomas de engenheiros. E ainda não vi filas de pássaros em consultórios de analistas tentando descobrir o que destruiu seus ninhos, porque seus filhotes estariam vendendo as palhas para comprar drogas ilícitas. Mas é apenas outra tola idéia fixa.

Por outro lado continuo apaixonado por esse sentimento de inquietude que nos faz criar belas estórias e o desejo do infinito; por esse sentimento de ideal – não raras vezes utópico – porém impulsionador, que torna este imperceptível farelo cósmico tão pretensioso.

Infelizmente, há muitas coisas em que não acredito, ainda, e outras nas quais acreditava, deixei de acreditar. Não acredito, por exemplo, que o sistema de cotas para negros nas universidades, da forma como vem sendo implementado, consiga resolver nossa diferença histórica, se esta continua sendo mantida através da falta de um ensino básico de qualidade para todos; se este continua sendo privilégio de uma minoria, “coincidentemente” branca, é verdade. Contudo, esta fórmula – que tenta resgatar o passado sem criar um novo presente – aumenta o fosso que separa as raças. Segrega mais que iguala. (Aliás, diga-se de passagem, comprovado está, cientificamente, que somos uma espécie única com bilhões de seres diferentes).

É uma pena isso. Juro que gostaria de estar mais leve, mais resiliente, menos indócil, com mais “jogo-de-cintura”, estilo Polyanna. Ou, quem sabe, continuando simplesmente ingênuo, acreditando que as guerras têm seus motivos nobres – e não apenas os (tão mesquinhos) econômico-financeiros. Ah! Doce ingenuidade – a crença nessa eterna luta do bem contra o mal , na qual falsos mocinhos e falsos bandidos digladiam até a morte. Nada há mais forte e “inteligente” que os maniqueísmos. Eu que não perdia, quando garoto (há tanto tempo!), a um único capítulo da Série “Robô-Gigante” e assisti ao último episódio no qual, para salvar a Terra de uma destruição total, provocada por seu Arquiinimigo (já não me lembro o nome! É sinal de que a memória de longo prazo também já está indo embora!), a ele atracou-se e voou para o espaço sideral, lá consumando sua missão, explodindo junto com o vilão e deixando o pequeno Daisaku em prantos (para os jovens, Daisaku era o garoto que comandava o Robô Gigante. Mas nesse dia, o Robô Gigante tornou-se autônomo e desobedeceu – por uma nobre causa – às ordens de seu controlador). “- Adeus, Robô-Gigante!” – ainda ouço a voz grave e emocionada do narrador, despedindo-se daquela Criatura Tecno-ideológica que postergou o fim da Terra e que ajudou a sedimentar em mim uma crença na luta do bem contra o mal, como se esta fosse natural e não apenas uma mera criação para justificação de interesses quase sempre pessoais. Agora, danou-se! Lá se vai a esperança na memória de médio prazo. Quem foi mesmo que disse: “Não somos bons ou maus, mas apenas circunstanciais.”? Mas naquela idade eu ainda não entendia isso e fui chorar escondido atrás da porta do quarto de meus pais, sentindo uma profunda dor no peito e na alma, até ser encontrado por minha mãe, coitada, sem entender o que se passava, até que eu consegui dizer, entre soluços: “O Robô-Gigante morreu!”. Ela chamou-me carinhosamente de “bobo” e aninhou-me em seu peito dizendo-me que tudo aquilo era de mentirinha Acho que na verdade ela queria me dizer que tudo – tudo! –  era de mentirinha. Até quando enxugou minhas lágrimas pela morte de Tancredo Neves e eu tive medo de ver os militares retomarem o poder. E tantas vezes – e tão recentemente – tive a sensação de sentir sua mão enxugando as lágrimas de meu rosto e sua voz carinhosa me dizendo: “Não seja bobo, meu filho: é tudo de mentirinha!”. Atrás de quantas portas ainda terei que me esconder para que meus olhos não denunciem que aquele ingênuo garoto insiste em sobreviver e a acreditar em mentirinhas, como causas nobres e no “grande e único amor da vida”? Minha linda mãe não conseguiu me convencer, porque tantas vezes também a vi chorar atrás da porta do quarto. Quantos “Robôs-Gigantes” morreram em sua vida?

Será que foi também isso que Chomsky quis dizer com “ilusões necessárias”? Isso que minha sábia mãe chamou de mentirinhas? Espero viver um pouco mais para saber.

Chego, enfim, com o surrado alforje das esperanças pendurado nas costas. São muitas. Mas esperanças não pesam, ao contrário das decepções e desenganos. Por isso, deixei estes lá atrás e procuro vislumbrar o horizonte, tentando alcançá-lo. Às vezes, falta-me ar, como na piscina que ousei enfrentar há poucos meses, quando perdi, mais que o medo de me afogar, o medo de ser ridicularizado, aprendendo a nadar depois de velho. Se papagaio velho não aprende a falar, pelo menos arremeda. Don’t worry, Cielo! Tenho pretensões mais modestas.

Continuo admirando Elba Ramalho, frustrado por não ter tido a oportunidade de ter dançado com ela em seus shows. Por outro lado, devo confessar que esta Moça de Cabelos Irreverentes, dona de um conjunto incrível de beleza e competência, chamada Vanessa da Mata, acorda minha alma adormecida há vinte e tantos anos. Ela levita quando canta! É, simplesmente, apaixonante! Mas são Divas de tempos diferentes: não posso ser acusado de “promiscuidade platônica”.

Enfim, quer dizer: parece que tenho vivido!

Se alguém por aí quiser tomar uma por mim, que o faça. Celebre por mim. Há dois anos não bebo álcool. Não, gente! Não precisou nenhum médico fumante ou alcoólatra dizer-me que eu deveria parar se quisesse continuar a viver, nem tampouco trocar a conta do bar pelo dízimo (apesar de respeitar os caminhos escolhidos por cada um). Foi apenas mais uma opção entre tantas outras. Difícil, devo confessar. Mas acho que me ajudou a chegar até aqui magoando menos nas relações sócio-afetivas, destruindo-me com menos intensidade.

E de porre já basta esse do dia-a-dia que dou naqueles que insistem em me amar e que acreditam em mim.

Talvez por isso, esse tempo tenha chegado sem me causar desespero: por causa dessa gente que, mesmo sem entender tantos questionamentos, acolhe-me como sou (ou estou?)

A vida não começa aos 40!

Ela começa agora, neste exato momento!

Feliz 2010!

(mas, cá prá nós, não dava prá minha mãe ter me deixado por último, não?)

Erasmo

07/01/2010

MINERVINO, UM MILAGRE DA NATUREZA HUMANA

 Há tempos tenciono dedicar uma homenagem a certa criatura chamada Minervino Santana Neto. Mas sempre me faltam as palavras adequadas. E se, agora, resolvo fazer tal homenagem não significa dizer que as encontrei. É por uma simples constatação: elas ainda não foram criadas! Não há palavras para “explicar” Minervino, muito menos para homenageá-lo à altura. E eu não tenho a eternidade para esperar que isso aconteça ou que um novo acordo ortográfico venha acudir-me, assim como acudiu àqueles que tremiam diante de um trema. Portanto, peço desculpas pelo aquém que ficará minha homenagem e espero um dia poder fazê-la à altura que seu destinatário merece. Descrever a natureza deste ser é algo demasiadamente complexo, tamanha sua simplicidade. Verdades paradoxais existem! Não me arriscarei nessa empreitada, pois me falta capacidade para ir até ao âmago. Creio que a melhor forma para dizer ao mundo quem é essa pessoa é ir relatando algumas passagens que marcaram minha vida. Delas, quem quiser, poderá tirar suas próprias conclusões. Contarei um episódio inesquecível para mim. Há alguns anos, esse meu amigo possuía uma barraca na Praia de Ipitanga. Chamava-se Barraca Portal do Mar, um dos “points” daquela – à época – paradisíaca praia. Somente quem já foi ou é barraqueiro de praia, sabe o quanto é difícil administrar este tipo de negócio. E Minervino entregava-se de corpo e alma naquele mister. Acabou o gelo…lá ia Minervino comprar o tal do gelo. Mal acabava de chegar com isto, já precisava voltar para comprar aquilo outro. E, ele, incansável, procurava dar o melhor de si para que sua clientela não ficasse insatisfeita. Trabalhava ele, sua encantadora esposa, Heleni, e os dois dedicados filhos e respectivas esposas, de forma tão competente que, indubitavelmente, aquele estabelecimento comercial era o que se tinha de melhor no gênero. Entretanto, apesar de todo glamour que iluminava o ambiente e da posição que galgara, nada disso afetava a simplicidade de Minervino. Aliás, parecia que toda aquela popularidade só o deixava mais humilde. E eis aqui uma das pérolas que pude colher dessa relação: No auge do sucesso, a Barraca Portal do Mar foi escolhida por um grupo de cerca de quinhentos médicos cardiologistas, que se encontrava em um Seminário na vizinha Capital de Salvador, para sediar um evento festivo. Confesso que até hoje – decorridos quase dez anos daquele evento – nunca vi nada parecido. Tudo fora devidamente planejado de maneira a cativar aqueles visitantes em sua passagem pela Bahia. E tenho certeza que o objetivo foi alcançado. Lembro-me dos Filhos de Ghandy desfilando pela areia da praia, vindo em direção à barraca, iluminados por um holofote, enquanto a noite mágica se deixava atravessar pelo “Tapete Branco da Paz” e pelo canto típico daquele “afoxé”. Havia, ainda, um belíssimo e contagiante show musical, impregnando no espírito daqueles turistas o melhor desta “Terra da Alegria”, revelando de uma forma inesquecível, “o que é que a baiana tem!”. Diante do sucesso de tal espetáculo, qualquer outro ser humano ficaria seduzido e faria o máximo para apresentar-se como o Grande Anfitrião. Mas não estou me referindo a qualquer outro ser humano. Refiro-me a um singular e incrível ser humano chamado Minervino. O que ele fez naquela noite, é algo que me emociona só de lembrar. O que ele protagonizou representa, para mim, uma daquelas situações que ainda justificam a fé nessa nossa espécie tão tola e pretensiosa. Sua atitude naquela noite marcou minha vida para sempre. Aconteceu assim: O evento crescia em energia, contagiando a todos os presentes. As pessoas encontravam-se em plena integração, em um desses raros momentos de comunhão coletiva. Minervino convidou-me a ir com ele para uma barraca vizinha, da qual o dono aproveitara a ocasião para tentar faturar alguma coisa, haja vista não haver o hábito do funcionamento noturno naquelas paragens. Esta barraca era bem mais modesta em relação à de Minervino e tal contraste se tornava ainda mais evidente naquele momento. Sentamo-nos e começamos a beber cerveja, assistindo, à pouca distância, ao grande espetáculo de alegria que acontecia na Portal do Mar. Em dado momento, não conseguindo conter a curiosidade, perguntei-lhe por que estávamos consumindo em outra barraca, o que significava, inclusive, estar pagando, quando poderíamos estar participando – sem ônus – daquela festa mágica. Vino, então, olhou para o céu – como costuma fazer quando pretende dizer algo muito profundo – parecia procurar as palavras nas estrelas, as quais pudessem clarear minha visão tão opaca. Com os olhos de sua alma avançada e humilde fixados no infinito, parecia entregar-se a uma prece. Após alguns segundos, olhou-me detidamente e falou de uma forma branda, mas tão grave que tive a impressão de estarmos isolados acusticamente em uma bolha, longe dos sons que provinham da barraca ali tão perto. Disse-me ele: “Erasmo, olhe para minha barraca. Ela está lotada de gente. É uma festa muito bonita. Agora, olhe para esta onde estamos. Ela está a poucos metros da minha, mas está vazia (de fato, apenas duas mesas estavam ocupadas, incluindo a nossa). Eu não posso me sentir totalmente bem dentro daquela festa, se ao olhar para o lado vejo que outro barraqueiro não tem a mesma oportunidade que eu. Eu gostaria que a dele, também, estivesse do mesmo jeito. Isso me deixaria feliz. Mas a dele não está. Assim, consumindo em sua barraca, ao menos entrará algum dinheiro em seu caixa e a sua noite acordada não terá sido tão em vão. Além do mais, estamos vendo toda a festa daqui…não estamos?”. Em seguida, bateu em meu ombro e pediu que o garçom trouxesse um “tiragosto”. Naquele instante, foi como se eu estivesse diante de uma dessas criaturas ascéticas, que só vemos nos filmes, ou ouvimos nas histórias que nos contam a fim de que não desistamos da Humanidade (muitas das quais, “puro marketing”, representando a eterna luta humana pelos nobres ideais). Senti como se um raio de luz penetrasse em minha alma e apenas sorri para ele, meneando um pouco a cabeça, como se estivesse diante do inacreditável; como se estivesse diante de uma das mais raras obras do Criador; de algo espetacularmente diferente de tudo que minha pequena alma já vira. Como explicar alguém em quem você pode confiar totalmente? Como descrever alguém que não precisa lhe dizer que é seu amigo, porque tudo que faz torna isso mais inequívoco, ainda? Que não tenta lhe comprar com falsas promessas e que cumpre aquelas que faz? Alguém que não precisa se autopromover, que não possui cartazes distribuídos pela cidade nem vive espalhando cascas de banana na vida dos outros? Escolhi essa grande figura para dedicar tal homenagem porque, com maior freqüência no passar do tempo, me pego cada vez mais cético quanto à Humanidade. Pego-me concordando com meu outro amigo, Renato, para o qual a única coisa realmente importante para o ser humano é o estômago, o que nos torna uma espécie “estomacêntrica”, para a qual tudo é justificável: das guerras às mudanças ideológicas de conveniência; das pequenas às grandes traições (se é que se pode graduar uma traição!). A vida é mesmo irônica (ou Vino a tornou assim?)! Lembro-me de como se deu nossa aproximação. Eu fora eleito presidente da Associação dos Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas, em 1995, e carregava umas idéias “socializadoras”. Uma delas, essencialmente polêmica, era a fixação de um determinado número de mesas e cadeiras por barraca, a fim de que os grandes estabelecimentos não acabassem ficando com toda a clientela da praia, enquanto os menores sucumbiam. Acreditava – em minha tola defesa pelos “mais fracos” – que aquela medida, aliada a algumas outras, evitaria o colapso econômico que se avizinhava dos barraqueiros da Praia de Ipitanga. Logo na primeira assembléia convocada para discutir o assunto, ele apareceu para contestar aquela idéia economicamente incômoda, ao lado dos “graúdos” da praia. Confesso que tive vontade de mudar a pauta ao ver tão pesada “Tropa de Elite”, pronta para pedir meu impeachement, mas ainda acreditava, incondicionalmente, em “bandeiras coletivas” e fui até o fim com a proposta. O clima ficou tenso e resolvemos transferir a discussão para outra oportunidade. Para minha surpresa, no dia seguinte, ele me procurou em minha barraca. Achei que ia me dizer uns desaforos. Mas ele me disse que estava ali para apoiar minha proposta. Que parara para pensar e chegara à conclusão de que eu estava certo. Considerei-o mais louco que eu. Como o dono de um estabelecimento que podia ter duzentas, trezentas mesas na praia poderia concordar comigo? Não sei responder. Perguntem a ele, quando puderem. A única coisa que sei é que ele me cativou. Para sempre! Obrigado, Minervino Santana Neto! Você não precisa de meus votos de Feliz Ano Novo. Você é que torna feliz todo novo dia! Erasmo 30/12/2009

PROMESSAS DE ANO NOVO – I

Renato (nome fictício de um grande amigo), enviou-me e-mail com o seguinte teor:

“Caro Amigo Erasmo. É madrugada e não consigo dormir. Estou aproveitando para “organizar as coisas”, afinal, um novo ano aproxima-se. Mas não sei por onde começar e acabo sentado aqui, em frente ao computador. Que fazer, então? Dirijo-me aos amigos…

Há tanta gente que eu gostaria de homenagear, agradecer ou mesmo dizer: “Grande FDP é/foi você!”. Tanta gente que deixei me fazer sorrir ou me fazer chorar; gente que me deu rasteira e ensinou-me a não mais vacilar; gente que me conduziu pela mão, com todo cuidado, e mesmo assim eu sequer mandei uma mensagem, depois, agradecendo pelo que fez por mim (quanta gente deve estar querendo me dizer, também, que fui/sou um grande FDP?!).

Perdoe-me, gente, se puder! Não tenho condições de procurar me redimir, agora! Não posso parar, agora, para aprender a jogar dominó com você sob a sombra de uma amendoeira, às quatro da tarde. Invejo-o(s) vivendo em seu tempo, conversando amenidades na porta da barbearia, “decidindo” a política sob o “Pé-do-Oiti”, assistindo impassivelmente ao trânsito que se “sãopauliza”, como uma serpente pesada e irritada, arrastando-se pelas ruas da cidade: o Século XXI chegou sem avisar. E inaugurou a era dos financiamentos a longo prazo para bens móveis…ou semi-móveis, como os automóveis…trocadilho barato, esse!.

Perdoe-me por não lhe dar a atenção devida quando me diz que a cidade está explodindo, que estão nascendo prédios demais sem que a infraestrutura seja alterada; que a Rua São Jorge alaga quando chove, mas, mesmo assim, estão sendo construídos dois espigões no ponto mais crítico daquelas imediações. Não lhe pergunto o que quer que eu faça. Sei o que pode me responder. E sua resposta pode me sensibilizar. Contudo, é melhor que não!

Perdoe-me por apenas concordar com você que obras e mais obras estão sendo construídas às margens do Rio Sapato, destruindo-o, estrangulando-o, a cada minuto, sem que os poderes constituídos façam alguma coisa para impedir. Apenas divirjo, um pouco, quando me falas em obras ou atividades clandestinas. Mas já nem sei se devo discordar, tentando lhe mostrar que clandestino é aquilo que é feito às escondidas. Então, como chamar algo que é feito às claras de clandestino? Não soa incoerente? Deixa prá lá. Foi só uma recaída de conscientização. Mas isso passa! Melhor seguir meu caminho com a cidadania enfiada entre as pernas.

Agradeço, de coração, a todos que me mostraram que o tempo de levantar bandeiras esvai-se; que só o que existe entre a boca e o intestino é o estômago (eu acrescentaria: e, pelo lado de fora, o umbigo!). Confesso que essa constatação empobrece minha visão da Humanidade. Mas, devo render-me, pois essa é (ou deve ser) a visão correta. Eu preciso aprender a conviver com a democracia, afinal, a maioria é que vence!…apesar de continuar achando que nem sempre vencer significa ganhar.

Deus do céu! É tanta gente boa prá dizer “muito obrigado!”. Mas já são quase três da manhã! E eu aqui divagando com tanta coisa ainda por fazer.

Preciso ajustar meu tempo à vida e vice-versa. Não à vida que foi ou à que será, mas a essa agora: concreta, pragmática, tão convencedora quanto confortável.

À essa, estampada nas dezenas (centenas, milhares…) de outdoors espalhados pelas ruas, cheios de beleza e de engenhosidade - sejam eles de propaganda instititucional ou comercial - todos intensos e veiculadores das verdadeiras realidades.

À essa, que me encanta pela tevê, provando-me “por A mais B” que as realidades não são as que vejo na Saúde, nem na Segurança ou Educação públicas. O mundo mudou e eu não o acompanhei. Não mais importa essa dimensão à qual posso sentir o cheiro e o ruído (cheiro de gente apodrecendo nos corredores dos hospitas, estampidos de tiros que me fazem esconder sob a cama). O mundo mudou. Agora, é de uma virtualidade magnífica. E os profissionais mais bem-sucedidos são aqueles que conseguem transmutar essas bizarras realidades naquelas dos outdoors, da tevê, das revistas. Isso, sim: o “Admirável Mundo Novo”…prometo tentar admirá-lo neste Ano Novo.

Preciso aprender a dançar conforme a música, amolecer essa junta enferrujada pela análise social.

Prometo que um dia tentarei aprender a jogar dominó e a acompanhar as tabelas dos campeonatos de futebol. Prometo que tentarei aprender a concordar com a maioria. Prometo tentar tornar-me mais sociável, participando de mais churrascos e de menos reuniões comunitárias.

Ajudem-me, por favor! Meu visto temporário de extraterrestre está prá vencer e eu não quero voltar para aquele planetinha…

Perdoe-me, Saint Exupéry! Quero ficar por aqui.

I can!

Renato”

Não importa o que lhe respondi. Apenas pedi-lhe que me autorizasse a publicar.

Renato, Madrugada de 15/12/2009

A ÚLTIMA (E ÚNICA) FOTO

 Em meio à profusão de e-mails diários que entupiam sua caixa de mensagens, Renato identificou um de sua amada. Apesar de toda evolução tecnológica, o ser humano continua o mesmo em termos de sentimentos e de expectativas. As mesmas emoções o perseguem desde o início. Uma carta que poderia levar meses atravessando oceanos até chegar ao seu destinatário, e que causaria um tremendo rebuliço emocional, atravessa, agora, o planeta em uma fração de segundos. Mas a Humanidade é a mesma quando o assunto é emoção. E só perde essa característica quando morre…ou deixa de viver.

Com o coração acelerado, esqueceu todas as demais mensagens e abriu aquela única que lhe interessava no momento. A velha escala de valores: emoção em primeiro lugar. Havia notícias profissionais, confirmações de agendas, assuntos “racionalmente” importantes clamando por sua atenção, mas tudo seria preterido naquele momento.  Será que um banqueiro inglês do século XIX optaria por atender primeiramente a um cliente importante ou preferiria abrir a carta perfumada da amante, que fora enviada do outro lado do Globo? A resposta seria a mesma duzentos anos depois.

Mas a razão assistia à emoção de Renato. Paradoxal? Claro que sim. Claro que não. Afinal, qual outra criatura sobre a face terrestre carrega tal marca? Sim. Era racional que se entregasse à sua emoção. Afinal, os contatos oriundos dela estavam cada vez mais raros. Isso não é racional? Psicólogos poderiam achar que não…quer dizer, dentro dos seus consultórios, podem pensar assim. Fora deles, nada mais são que espécimes da mesma raça humana. É possível que achassem isso racional, também. Ou que sequer tivesse a menor importância.

A conexão pareceu-lhe uma inimiga declarada: aumentava sua ansiedade, arrastando-se de uma página à outra. Bateu impacientemente com a palma da mão sobre a mesa. Lembrou-se das lições de informática: “Software é aquilo que a gente xinga! Hardware é aquilo que a gente chuta!”. Naquele momento, não era uma técnica de memorização divertida. Teve ímpetos de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quantas cartas derreteram-se em alto-mar, naufragadas juntamente com os navios que as carregavam, atacados e destruídos por piratas? Quantas palavras quentes derreteram-se nas águas geladas e silenciosas dos oceanos, deixando seus destinatários sem saber dos sentimentos dos entes amados?

Finalmente, abria-se a janela daquele mundo virtual, recém-criado. Tão evoluído, mas não livre dos piratas e de suas pilhagens. Não livre da solidão dos marinheiros. Não livre da distância. Não livre dos naufrágios e do medo de chegar.

Havia uma foto dela. Curiosamente, não tinha muitas fotos dela. Pelo menos não cedidas por ela. Possuía algumas feitas a partir de celulares, que ele mesmo tirara em momentos de descontração, assim mesmo sob seus protestos. Mas agora, eis que recebia uma foto por e-mail. Era uma foto especialmente preparada para ele. Sua amada estava mais bela que em qualquer outro momento. A roupa acentuava-lhe as curvas do corpo. Aquele mesmo corpo que o transportava para outras dimensões, que o fazia emocionar-se com a simples visão a cada vez que o via, fosse vestido, bailando em uma rua de camelôs, em plena tarde ensolarada de Niterói, ou nu, deitado, aguardando febrilmente o seu contato sobre a cama. Brilhava. Carregava um indecifrável sorriso (“Certamente” – pensou –  ”Leonardo da Vinci ratificaria essa observação”), dando a impressão de que realmente estava ali, diante dele, tridimensional, real, exalando seu cheiro. Era, realmente, a foto mais bela que já vira. E a única que ela lhe enviara, apesar de tanto tempo juntos. Mas era também a última. Não havia uma única palavra no e-mail dizendo isso. Nem dizendo qualquer outra coisa.

Apenas havia, com os braços envoltos em sua cintura, abraçando-a por trás, outro homem.

Renato deixou que o oceano o engolisse, sem se debater. De olhos abertos, foi afundando devagar, olhando a foto acima dele, que boiava na superfície e ficava mais longe, enquanto seu corpo descia naquelas águas gélidas. Não teve a sorte de ser atravessado pela espada de um pirata, mas ainda ouvia seus urros e o tilintar das armas.

Não teve tempo de ver a foto desmanchar-se. Sua alma partira antes disso.

Resgatei-o algum tempo depois. Estava debruçado sobre a mesa de trabalho. A tela do e-mail ainda estava aberta. Não precisei perguntar-lhe o que acontecera. Conhecia aquela intensa e tumultuada história. Era seu confidente. Fechei a página para que os outros colegas não a vissem. Por alguns segundos fitou-me com os olhos marejados. Depois os enxugou e sem nada dizer recomeçou a trabalhar.

Mas não era mais o Renato que eu conhecera. Aquele outro morrera. Restara esse, sem alma, que deixara de viver a partir daquele momento. Morto, mas livre da dor.

Livre da vida, livre das cores…como se tornou aquela foto boiando na superfície do quase-infinito oceano. Aquela última (e única) foto que dela recebera.

Erasmo 06/12/2009

AS MANHÃS NÃO SÃO MAIS AS MESMAS – Memórias de “Um peixe fora do ninho”

Ela surgiu da mesma forma que desapareceu: repentinamente. Veio do passado. Um passado de poucas referências. Aliás, de uma única referência: um sorriso integral dentro da moldura da memória.

Para minha alegria – como um presente dos deuses – passei a vê-la todos os dias. Do passado de uma única referência, emergia e delineava-se um belo e imenso sorriso em forma de gente. E isso preenchia de uma forma suave e quase imperceptível minhas manhãs.

Era tão suave que eu próprio não me permitia mover-me. Temia desmontar aquele quadro tão belo. Não, não era o respeito pelas instituições sociais. Não me importava ser ela proibida. Não eram aqueles seus rebentos – belos, inocentes, felizes com seus sorrisos estampados em uma tela de computador – que tolhiam meus sentimentos e movimentos. Era nada mais que o efeito paralisante do fascínio por algo intocável (ou que não deveria ser tocado).

Meu olhar fazia festa com aquela chegada alegre feito uma manhã ensolarada e cheia de pássaros. Minha alma fazia festa. Todo meu ser fazia festa diante daquele espetáculo, que parecia diferente e mais belo a cada dia. Ou melhor: que era o próprio dia.

E aquele Dia Sorridente acomodava-se ali bem perto de mim. Onde um simples estirar de braço tocaria seus raios, os quais escorriam pelo encosto da cadeira, balançavam e brilhavam. Ali pousava todos os dias, aquela graciosa e linda pluma.

Por quanto tempo existiu esse paraíso? Não me recordo. Agradecia aos deuses todos os dias pela minha felicidade.    

Porém, esqueci-me que os deuses – desocupados e despreocupados com os sentimentos humanos – costumam pregar peças.

Um dia a cadeira não foi preenchida. Outro dia depois. E outro. E mais outro. E um grande vazio habitou aquilo que me parecia um universo só meu.

Uma pequena lágrima tentou brotar desta alma cansada. Troquei-a por um sorriso. O que é a vida senão uma sucessão de instantes que vão ficando para trás? – consolei-me.

 O que é ela nada mais que uma sucessão de ações e de omissões? De canções que não foram feitas, de sorrisos que clarearam as manhãs, de intenções veladas, de silêncios atordoantes, de desejos impossíveis?

 Os deuses são uns babacas – nunca entenderão o que é alma humana, muito menos a minha  (que sequer entende o que é ser humano). Tampouco eles entenderão o que a faz interromper tudo para escrever isso…

 Confesso que eu também não!

 

 

Na contramão!

Meus amigos, minhas amigas e seus filhos enormes. Encontro-os todos na rua. Recebo suas fotos. É tudo tão veloz!

Meus amigos, minhas amigas e suas filhas compositoras . Criaturas que vi crianças, agora comandam o mundo com simples toques em teclados e escrevem seus livros, enquanto seus pais se sentam na varanda para falar acerca dos “velhos e bons tempos!”.

Que ocorre na inquietude de minha existência?

Na contramão?

Minha nossa! Enquanto minha geração se aposenta, afundo na piscina tentando aprender a nadar. Tento entender o que dizem essas crianças na www.  Provoco uma revolução silenciosa e interna em mim mesmo. Torno-me indigno de meus pares: porque não sei o que é a paz; porque não mais sucumbo às ingratidões; porque não tenho estrada; porque sou meu próprio caminho; porque não sei mais compor letras de canções que traduzam as dores da alma (e de cotovelo: “Ai-ai-ai…”); porque me calo quando um golpe mais profundo me corta a carne – não grito! Ainda creio, mas não mais me decepciono. Não me rendo! Não peço clemência! Não peço prá descer.

Vivo na contramão!

Ou será na minha exclusiva mão?

Diagnósticos psicológicos serão sempre bem-vindos, principalmente se postados via Correios em greve e enviados para o meu futuro endereço, que nem eu mesmo sei onde será!

Ve-mo-nos por aí! Quem sabe, em “um museu de grandes novidades” (homenagem ao Eterno Cazuza!)

Erasmo

(esquentando as turbinas para encarar a madrugada!)

HISTÓRIAS DE MENINOS E SEUS SONHOS

LITORAL TÁXI – Um sonho. Várias realidades.

 

Quando eu era criança, gostava de fazer caçambas de brinquedo. Eram réplicas dos também denominados caminhões-basculhantes. Aliás, deve ser mesmo o nome mais apropriado para aqueles veículos de transporte de materiais, nos quais inspirava-me para criar minha frota. Fabricava-as com latas de óleo Salada. Essas eram retangulares àquela época. Tinham listras pretas e amarelas. Cortava-as ao meio e dava-lhes as características de uma cabine de caminhão: aberturas na frente, dos lados e atrás, representando o pára-brisa, as janelas das portas e a escotilha traseira, através da qual o “caçambeiro” monitorava o movimento do basculhante. Esse, também era feito da lata do óleo comestível. Só que era aberta em uma de suas faces mais largas e a parte da lâmina continuava presa em uma das extremidades, para se transformar na aba, em forma de cantoneira, que se projetava sobre a cabine (ou boléia, como alguns a denominam. Na verdade, nunca entendi prá que serve mesmo aquela aba sobre a cabine!). Essas duas peças (cabine e basculhante) eram fixadas sobre um pequeno pedaço de madeira, com pouco menos de trinta centímetros de comprimento. Depois, montava o conjunto sobre um sistema de pneus e eixos, que nada mais eram que pequenos círculos feitos da borracha de velhas sandálias Havaianas, presos em grossos pedaços de arame.  Depois de prontas, enchia-lhes o basculhante de terra e punha-me, orgulhoso, a puxá-las por um barbante pelo quintal, que em minha imaginação era uma estrada acidentada, cheia de ameaçadoras poças de lama e traiçoeiras curvas. Quando havia algum monte de areia ou outro material de construção dando sopa, era dele que se originava a valiosa carga; mas isso, normalmente, resultava em confusão, porque alguém sempre implicava com aquela operação, a qual simbolizava para mim, a construção do progresso. Achavam que eu estava estragando o material. “Por que os adultos não enxergam o óbvio?” – perguntava-me.

 

Hoje, decorridos mais de quarenta anos daquelas ingênuas experiências; mais de quatro décadas de sonhos e desilusões, às vezes ainda me pego fazendo a mesma pergunta: “Por que os adultos não enxergam o óbvio?”. E o pior: continuo sem a resposta. Pior, ainda: hoje, também sou adulto.

 

***

No mês de dezembro de dois mil e quatro, após perder um emprego na Prefeitura de Lauro de Freitas, fui ser taxista nessa mesma cidade. Era mais uma rica experiência que se incorporava à minha já eclética trajetória. Não demorei a perceber que uma tremenda desunião reinava entre aqueles profissionais e, junto com ela, uma total falta de perspectiva de dias melhores. A maior parte deles passava o tempo jogando dominó, aguardando que algum cliente caísse do céu. Poucos possuíam uma carteira de clientes que lhes proporcionasse um sustento digno. Para completar o quadro, a liberação de novas licenças parecia ameaçar a sobrevivência do pseudo-sistema de táxis da cidade. Afinal, a frota, simplesmente, dobrara de uma hora para outra. E isso acabou se transformando em uma bandeira política falaciosa (como muitas e muitas outras): a Prefeita eleita naquele ano de 2004, ameaçou cassar os alvarás concedidos pelo gestor anterior. A Administração Pública alegava uma série de falsos motivos. Todos, políticos, diga-se de passagem (depois ficaria provado que o número de novos táxis representava uma  conquista da sociedade). Dezenas de pais de família viram-se, repentinamente, sem saber o que fazer com aqueles carnês de financiamento de veículos, ainda tão cheios de folhas a serem pagos. Sinistros compromissos. O que era um sonho tornara-se um pesadelo.

 

A vida ensinou-me a lutar pela sobrevivência, a qual nunca foi muito fácil para mim. Nunca nada veio de mão beijada. Sempre resultou de muita luta, de muito suor e até de muitas lágrimas. E se esse sentimento de ter direito à dignidade tornava-me solidário até com quem nem conhecia, o que dizer quando se tratava de quem conhecia? Aquela era minha nova categoria profissional, meus companheiros de jornada. E eu também estava no mesmo barco que eles. Foi assim que durante todo aquele ano de 2005 travamos uma batalha com o Poder Público Municipal e, no início do ano de 2006, conseguimos a renovação daqueles alvarás. Nada mais justo. Porém, nada mais difícil de provar, como toda obviedade.

 

Naquele período de luta, consolidei algumas amizades. O companheiro Loxa foi uma delas. Juntos, disponibilizamos centenas de horas pela causa dos “novos taxistas”: reuniões, manifestos, correspondências e apelos. Qualquer hora, qualquer lugar. A campanha era full time. Nenhum vereador levantou nossa bandeira. Pelo contrário, alguns até se colocaram contra nós. Na verdade, queriam os alvarás para seus aliados. Outros a quem procuramos, deram respostas evasivas. Fugiram. Esconderam-se. Ironicamente, acabaram tendo apoio, na última campanha, de alguns daqueles a quem eles mesmos deram as costas no momento em que mais precisavam. Irretocável é a máxima: “O povo tem os governantes e representantes que merece!”. Será que também essa conversa de que o povo gosta de ser sacaneado é verdade? Reluto em crer nisso.

 

Bem, de qualquer sorte, mesmo sem apoio político, nossa luta não foi em vão.

 

E dela nasceu o sonho de formar uma cooperativa.

 

E assim como as palavras do poeta-maluco-beleza, Raul Seixas, vimos o gérmen da Litoral Táxi começar a romper o solo do ceticismo, já castigado pelas experiências fracassadas anteriores, já petrificado pelas chuvas ácidas dos movimentos político-partidários… “Sonho que se sonha só é só um sonho que sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.”.

 

Aos poucos, novas forças foram se juntando. Muitos declaravam abertamente que isso não funcionaria. Diziam que os taxistas tinham “cascavéis” nos bolsos e por isso neles não meteriam a mão para financiar uma empreitada dessas. Outros relembravam as experiências negativas de antes. Outros, ainda, alegavam a desunião dominante entre a classe. Mas esses argumentadores foram sendo convencidos (o que é mais importante que termos vencido-os). Novas e importantes amizades, como Vladimir, Railson, Joca, Zito (apenas para citar algumas), foram construídas nesse período.

 

No dia 13 de dezembro de 2006, aquela semente – que na verdade fora plantada dois anos antes nos campos de luta daquele anterior e tão diferente dezembro de 2004 – rompia a terra e se tornava realidade. A Litoral Táxi botava sua cara no mundo, para mudar, definitivamente, a História do sistema de táxis de Lauro de Freitas; para provar que o cooperativismo pode dar resultados positivos; para mostrar que sonhos – se trabalhados com determinação – podem se tornar realidade.

 

Lembro-me que um dia eu trafegava na Av. Paralela e vi, à minha frente, colado no vidro traseiro de um táxi de Lauro de Freitas, o adesivo da Litoral Táxi. Era o primeiro que eu via circulando. Emocionado, liguei para Loxa e tentei lhe falar daquela experiência fantástica, única, indescritível. Ele também se emocionou. Naquele momento, lembrei-me da frota de caçambas de brinquedo, feitas de lata de óleo Salada, tão distantes no tempo. Lembrei-me das implicações bobas daquelas pessoas que não entendiam o que significava um sonho em ação e reclamavam das minhas caçambas espalhando seus materiais de construção.

 

Depois foram chegando novos veículos para a frota. E eu senti felicidade com aquilo. Apertei a mão de cada um daqueles que souberam aproveitar toda a força que a Litoral representava. Abracei-os com o coração em festa, porque aquela conquista também era uma conquista de cada homem e de cada mulher que ali estavam dia e noite cuidando para fazer da Litoral Táxi o que ela é hoje. Certa ocasião, narrando sobre essas experiências com a Cooperativa a uma pessoa, ela perguntou-me: “Você já disse isso a eles?”. “Sim! Já lhes disse! De todas as formas!” – respondi, cheio de entusiasmo.

 

Eu não sonhei sozinho esse sonho. Por isso ele virou realidade. Exceto aqueles que só querem carregar maldade e traição no coração, muitos sonharam juntos esse sonho: as operadoras (principalmente Telma e Tatiana, que nos acompanharam desde o “porão”); os associados que trabalharam certo; os clientes, que acreditaram nesse trabalho tão simples, mas que, até então, não dera certo dentro de Lauro de Freitas. Os novos amigos que foram chegando como, por exemplo, Nilton e mais outros e outros, além das novas operadoras.

 

Mas quantas coisas óbvias tivemos que desvelar, porque ali estavam e não eram vistas, durante esse período?

 

- Que a união faz a força! Que uma andorinha só não faz verão! Que não adianta ir à Igreja e fazer tudo errado/você quer a frente das coisas olhando de lado! Que não adianta apenas falar: é preciso fazer! Que nada se constrói sentado lamentando uma queda!

 

E tantas e tantas outras obviedades! Tão óbvias, mas tão difícil de serem entendidas.

 

 

 

E quantas outras ainda precisamos desvelar?

 

- Que não se apaga uma história para começar outra. E que cada história, cada parcela do passado, tem que ser respeitada.

 

- Que não se é dono de nada nessa vida. Talvez, com muito custo e disciplina, possamos ser donos dos nossos pensamentos, apenas isso.

 

- Que ser “capitão” ou “comandante”, simplesmente por causa de estrelas no ombro ou de postos, não significa liderar. E que, nessa nova era, o que as instituições e os empreendimentos precisam são de líderes e não de chefes;

 

- Que as molecagens feitas através do rádio apenas queimam todo um trabalho feito com seriedade;

 

- Que deixar de cumprir com as obrigações financeiras para com a nossa Cooperativa, apenas enfraquece-a;

 

- Que só há um inimigo capaz de derrotar a Litoral Táxi. E ele se chama: Litoral Táxi!

 

***

 

Eu cresci. Amadureci (prá não dizer envelheci: é mais elegante e menos traumático…rsss). Nem sei se existe mais o óleo Salada. Até as crianças mais pobres de hoje já podem brincar de carro sem se sujar: pilotam máquinas virtuais ou matam adversários virtuais nas lan houses!  Não sei se isso pode construir idealistas e realizadores. Talvez, sim! Talvez, não!

 

Eu só sei que a Litoral foi um sonho que se tornou realidade. E que pode ser uma realidade ainda melhor: basta conseguir ter a capacidade de imaginação das crianças; basta enxergar o óbvio como elas, simplesmente, enxergam; Basta ter a capacidade de continuar sonhando e correndo riscos…mesmo depois de ter cortado o dedo na lâmina da lata de óleo…mesmo depois da bronca por ter espalhado a areia do vizinho…mesmo depois que o pneu da caçamba, feito de borracha de sandália Havaiana, “furou” e a fez tombar…mesmo que ninguém mais perceba que aquela trilhazinha passando por dentro de uma mera poça de lama é uma grande estrada a ser construída para o futuro.

 

 

Erasmo

 

Primeiro Presidente da Litoral da Táxi – Cooperativa de Taxistas de Lauro de Freitas (Jan/2007-Jan/2009)

 

Madrugada de 10 de agosto de 2009.

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