Post it para nada lembrar

Aposto que posto no próximo posto.

Isto posto, prosto-me, posto-me, pós tomo-me.

Aposto que posto no próximo posto.

Mas e o post it? Posto isto. Posto naquilo.

Por que tanto imposto no posto?

Mudam-se os comandantes

Mas o imposto, sempre im-posto.

Era prá isso o post it?

O amarelo ou o vermelho?

Não sei mais. O transparente, talvez!

Da cor do nada, que nada faz lembrar.

Aposto que posto no próximo posto.

Não me aguardem: postitem (enquanto durmo).

O Último Dia do Pai

Silêncio. Apenas, silêncio. A lembrança do sorriso recentemente apagado. Reacendo-a, olhando para sua foto.

Tento não deixar que as lágrimas escorram. Mas elas teimam e escorrem…

E eu me silencio no teu eterno silêncio.

Esqueço o que não me disse. Interpreto o que não me ensinou.

Olho para sua foto sobre a estante. Avô feliz com o neto nos braços. Ambos de gravata. Cúmplices. Belos.

Risonhos. Silenciosos.

O mesmo silêncio. O mesmo enigma.

Feliz silêncio, Pai! Onde quer que estejas!

UMA FORÇA CHAMADA JESUS

A cada atividade em que preciso de superação, invoco essa Força que eu não compreendo bem. E porque não a compreendo, mas sinto o quão tão forte ela é, eis a razão pela qual deixo-me que me conduza.

Não sei quantas vezes Ela já atuou em minha vida sem que eu a percebesse. Contudo, as vezes que pude percebê-la conscientemente, já seria o bastante para me convencer se fosse um incrédulo. E olha que minha fé ainda não é tão grande assim.

Não preciso das paredes das igrejas, apesar de respeitar todas elas.

Não preciso das palavras inflamadas dos oradores, mesmo achando que estão a cumprir um papel importante na sociedade.

Não preciso que me descrevam-no como um galã de Hollywood.

Basta-me saber que é uma Energia mais forte e mais poderosa que as demais; que está acessível a todos e que pode operar aquilo que comumente chamamos de milagre.

Não preciso compreendê-la. Basta-me saber que está presente em todos os lugares e que não se impõe a mim. Mas basta que eu permita e ela me preenche como se eu fosse uma imensa bolha de energia em expansão, em constante e incrível expansão.

Afirmam que Este nome TEM poder. Eu afirmo: “JESUS! ESSE NOME É PODER!”

Eu quero estar conectado a essa Fonte. Quero estar imerso, envolto, em harmonia com ela como o peixe nas águas do mar; como a ave na plenitude do vôo.

Agora e sempre!

Máscaras do poder

Não importa em que mãos esteja, a essência do poder  sempre foi, é e será imutável. Por outro lado, as máscaras com que este se mostra ao seu pseudo-detentor – o povo – é que variam tão formidavelmente ao ponto de fazer com que esse acredite e comemore como suas as conquistas dos verdadeiros detentores e manipuladores daquele.

Irei, daqui há pouco, prestar um concurso. Mas a imagem que me vem a mente é a de alguém jogando centenas de cédulas falsas de dinheiro do alto de um hotel de luxo. Vejo as pessoas surpresas, alegres e desesperadas, disputando-as por entre os veículos em movimento, sendo algumas atropeladas por eles. Vejo que se violentam mutuamente agarrando-se às mesmas cédulas. Vejo-as ajoelhadas ao chão, com um monte de cédulas presas entre as mãos crispadas, elevando-as ao céu em sinal de agradecimento pelo milagre! Mas também vejo lá dentro do suntuoso hotel, na melhor das suítes, banqueteando-se dionisicamente, os escolhidos para quem as verdadeiras cédulas foram entregues antes.

Vejo o sorriso do Poder distribuindo os ilusórios prêmios. Uns mais efêmeros. Outros, menos.

Mas o Poder parece não saber que muitas pessoas não precisam desses tipos de benesses e que elas carregam dentro de si, a título de prêmio, as vitórias sobre si mesmas. Estas, sim, as verdadeiras cédulas.

Tais pessoas não se iludem (pelo menos não tão facilmente). E ainda que ameaçadas, não se curvam. E se lhes matam seus sonhos, eles ressurgem da dor, mais belos e mais fortes.

Com licença! Eu vou à luta! À minha luta!

 

 

Essa foi prá você, meu Pai! Uma homenagem póstuma

Hoje, um Belo Anjo trouxe-me (boas) notícias suas. Contou-me que você estava conosco no quintal lá de casa, alegre e feliz. Que chegara a hora de ir e você, sorridente, pedia para ficar mais um pouco com seus filhos. Saiba que você está e estará, belo e sorridente em nossos corações, eternamente! Não se preocupe. Chegaremos lá. Cada qual ao seu próprio modo. Pode comemorar o primeiro lugar na classificação provisória do MPU, Técnico de Orçamento, alcançado aqui por seu “menino de cabelos brancos”. Essa foi em sua homenagem, meu Velho! Outras vitórias virão, ainda! Descanse em paz!

DESPEDIDAS, CAMINHÕES E “COINCIDÊNCIAS” Uma experiência sobre a Grande Passagem!

Ontem, sofremos a dor de enterrar nosso pai. E só quem já passou por ela sabe a sua intensidade. Mas, também para aqueles que ainda não a vivenciaram, é possível imaginar o sofrimento.

Vimos cada lágrima um dos outros, irrigando a dor da partida do nosso belo pai. Assistimos ao seu repouso, quase sorrindo, após ser vencido por uma doença fatal. Porém, meus irmãos e amigos, devo dizer, com toda a certeza que a cada dia cresce em meu espírito acerca da existência de Deus, que a doença só venceu a sua carne. E isso, mais tempo, menos tempo, seria feito pelo próprio tempo. É sobre esse testemunho – de que seu espírito está belo e vivo – que lhes escrevo, emocionadamente. São lágrimas de saudades misturadas com lágrimas de alegria. O Grande Deus permitiu que nos chegasse uma mensagem muito clara de que nosso Pai já se encontrava ao seu lado e que a vida não termina quando nosso coração pára de bater.

Antes, eu preciso contar-lhes uma historinha.

Lá pelos anos 70, meu Pai possuía uma caçamba (na linguagem técnica: um caminhão-basculhante. Prefiro chamá-lo de caçamba, mesmo). Era uma Mercedes-Benz LP321, a chamada “cara-chata”. Tratava-se de um modelo cujo motor ficava dentro da própria cabine, sem ter, portanto, aquele prolongamento na dianteira, que caracteriza a maioria dos caminhões (coloquei a foto de uma delas no fim do texto). Por isso o sugestivo apelido de “cara-chata”. Ela era azul e possuía uma saudação escrita logo abaixo do pára-brisa: “Salve Maria”. Por ter apenas um eixo de rodas na traseira, recebia (como até hoje recebem os modelos semelhantes) outro apelido: “toco”. A “Salve Maria” era, assim, uma “cara-chata-toco”.

Pois bem. Àquela época, os “caçambeiros” estavam no auge. Havia muitas oportunidades de trabalho para seus equipamentos. Era um trabalho penoso, arriscado, mas que rendia frutos e, para alguns que souberam aproveitar o “boom”, foi possível juntar algumas economias ou reinvestir na própria atividade. Imerso na efervescência daquele momento, encontrava-se “Pernambuco” (apelido dado a meu pai devido à sua procedência). Ele passava a maior parte das horas do dia sobre as seis rodas de sua caçamba. Tanto era assim, que raras vezes parava para almoçar em casa, mesmo passando freqüentemente pela entrada do bairro onde até hoje mora a maior parte da família, na esquecida Valéria.

Naquele tempo, ainda existiam poucas casas no distante bairro de Valéria. Isso permitia que, da casa onde morávamos, fosse possível avistar um pequeno trecho da Rodovia BR-324, a uma distância de aproximadamente entre um quilômetro e meio ou dois. Meu Pai costumava buzinar durante seu percurso naquele trecho. A caçamba possuía uma buzina de ar, típica de caminhões grandes. Ela era acionada através de uma corrente dessas mais finas que se usa para prender cães. Ficava fixada no canto dianteiro do teto, ao lado esquerdo do motorista, próxima ao pára-brisa, e descia até o piso, onde se encontrava com o mecanismo que liberava o som da buzina. Ele tinha um jeito “artístico” de acionar a buzina, fazendo-a se repetir de uma forma inconfundível. Nessas horas, acompanhados do “Oh! Lá vai seu Pai!”,  exclamado por minha Mãe, parávamos tudo que estivéssemos fazendo e corríamos para a janela a gritar, festejando aquele momento ímpar (o qual nunca imaginaria que um dia me faria chorar desse jeito de tantos significados que carrega).

Ainda não éramos os dez que somos hoje. E mais da metade de meus irmãos não teve a oportunidade de experimentar essa sensação, a qual tento, inutilmente, transcrever. Minhas palavras são limitadas e entrecortadas de soluços. E eu não consigo dar a elas a sua real magnitude. Perdoem-me por isso. Permitam-me apenas discorrer minha narrativa, sem a pretensão de reproduzir em vocês as mesmas sensações que experimentei.

Bem, além de servir para avisar que ele estava simplesmente passando naquele momento por aquele trecho da estrada, havia um momento durante o dia em que a buzina servia para anunciar que no seu retorno (quando voltava para recarregar a caçamba) deveríamos levar o seu almoço. Todos os dias, íamos, eu e Joice, minha irmã, levar sua refeição lá na estrada. Raros eram os dias em que ele tinha a oportunidade de almoçar em casa, como disse antes, pois a disputa era acirrada entre os caçambeiros visando a alcançar o maior número de viagens possível. Parar meia hora significava perder várias posições na fila do carregamento.

Mas por que lhes conto essa história tão distante no tempo, tão longe da realidade atual, na qual os filhos cujos pais trabalham tanto podem se conectar com eles através da internet e vê-los através das “webcans”?

É porque Deus, na Sua generosidade infinita, permitiu-me a oportunidade de crer – ainda mais – que a morte não acaba com a vida (ou, se preferirem, que a vida não se acaba com a morte). E aqui me recordo das palavras do meu amigo e irmão, Roberto Muniz, tentando confortar meu coração: “Guerreiro, esse é o grande mistério da vida, no qual teremos que entrar para entendê-lo e ao qual teremos que enfrentar tantas vezes em nossa trajetória”. É mistério, sim. O maior de todos. O mais assustador e mais belo de todos. E ontem eu pude crer, ainda mais, que não existe apenas o Grande Vale da Morte após nosso último suspiro. E sinto-me muitíssimo grato ao Criador por isso. Continua o mistério. Mas vai-se o medo. Do outro lado do Vale inicia-se uma nova trajetória.

Quando meu espírito, embaçado e transtornado pela dor, despedia-se do meu Velho Pai, assistindo à urna que o carregava descendo ao seio da terra; quando esse espírito de pouca fé já se esquecia de tantas maravilhas que me foram proporcionadas; quando meu espírito se consumia na mesquinhez da própria dor, abatido, vencido, não convencido pelas palavras do padre amigo, que tentara, minutos antes, instilar um pouco de fé e de esperança pronunciando palavras de conforto para os amigos e familiares no velório, um sinal, um simples sinal, arrebatou-o da dor. E o confortou.

“Ora, como se vale a natureza humana de artifícios para fugir da dor”, dirão alguns a quem não posso condenar pela incredulidade ao ler minhas palavras. “Ora, como essa natureza se apega a meras coincidências para fundamentar a própria existência”, dirão outros, a quem também não poderei julgar. Mas a todos esses poderei sorrir com o espírito sereno e convicto dos agraciados. Não como admoestação, não como reprimenda, mas apenas como o beijo calmo e sincero que se aplica à face amiga, digo-lhes: “Deus habita nas coincidências!”.

Pois eis que quando a urna funerária descia ao fundo da terra, pronta para deixar em mim a impressão de que a vida acaba aqui e que nada mais há depois, chegou-nos de há poucos metros da pista em frente ao cemitério, o sinal inequívoco, mais belo e alegre que poderíamos receber. E particularmente para mim, numa linguagem clara, personalizada, dirigida ao coração do meu espírito, aquele sinal não carregava outro significado que não aquele de que a Grande Passagem se completara e que o espírito do “Cowboy” chegara completo e exultante do outro lado Vale da Morte…várias buzinadas, meus irmãos e amigos, no velho estilo dos caçambeiros e caminhoneiros com suas buzinas de ar, irromperam pelo campo e eu não pude deixar de exclamar: “A buzina da caçamba! Ouçam!”. E aqueles que compreendiam aquele sinal também o ouviram. Um dos meus irmãos afagou meu ombro por detrás e disse-me: “É a buzina, que avisava você e Joice para levarem a comida!”. E minhas lágrimas de tristeza se tornaram de alegria.

“Coincidentemente”, um ou dois caminhões que trafegavam na via que dá acesso ao cemitério emitiram os sons tão pitorescos. Que outro sinal poderia ser usado tão eloqüentemente? Que outra “coincidência” poderia ser mais útil para uma alma em prantos?

Não é que aquele Velho Traquinas tinha conseguido uma forma de avisar que chegara bem? E que até o próprio Criador – a quem tudo é possível – feliz pelo retorno de seu filho amado, permitiu que nos mandasse notícias suas para nos confortar?

E eu vos escrevo, entre lágrimas de agradecimento, para dar esse testemunho.

***

“ – Oh! Lá vai seu pai!”.

Sim, mãe! Sim, meus irmãos e amigos! Ele chegou lá dirigindo a “Salve Maria”, garboso, bonito, feliz… e com a missão cumprida!

“Coincidentemente”, as caçambas que acabaram de passar por aqui onde moro, e ao final desse demorado texto que lhes escrevo, soltaram suas alegres buzinas!

Obrigado, Imenso Deus!

Descansa em paz, Meu Velho!

Erasmo

23/09/2010

O texto “Salve Maria” fora escrito na chapa de alumínio abaixo do pára-brisa.

Fotos do modelo “cara-chata” podem ser encontradas em http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://images03.olx.com.br/ui/8/51/12/1279969560_106654912_1-Fotos-de–CAMINHaO-MERCEDES-BENZ-1113-ANO-1960-COM-CARROCERIA-1

Projeto Orla I (Versão 2)

Primeiro, o inquestionável: a orla marítima brasileira precisava, há muito tempo, de uma reordernação. Alguém consegue discordar disso? Nem mesmo eu, que durante onze anos fui barraqueiro de praia. Agora, o questionável: até que ponto, efetivamente, se consegue alcançar o interesse público – fim último de toda estrutura governamental – com normas e ações que ignoram a realidade social? E, ainda: que espécie de “limpeza” é essa? Exigências para 2014?

Sem qualquer margem de dúvida, o trabalho técnico desenvolvido pelo Governo Federal, e disseminado entre os Estados e Municípios, visando a “fortalecer a capacidade de atuação e articulação de diferentes atores do setor público e privado na gestão integrada da orla”[1] é realmente de excelente qualidade. Da concepção à execução, passando pela indispensável fase do planejamento, poder-se-ia considerá-lo irretocável.

Contudo, apesar desse esmero técnico e da tão propalada integração entre os órgãos do governo, a qual proporciona ao leitor dos diversos textos que compõem esse projeto uma impressão de que tudo foi devidamente ponderado, tal integração é limitada. Perigosamente limitada. Fundamentado tão-só e exclusivamente na “letra fria da lei”, o Projeto Orla ignora uma realidade social, econômica e cultural construída ao longo de décadas. Imagine que a orla marítima é uma linha viva, possuidora de dinâmicas próprias. Agora, imagine uma imensa borracha apagando-a sem qualquer cuidado com o que pode ser aproveitado…assim ele atua. É a lei sendo usada como instrumento para apagar o patrimônio histórico e cultural de um povo.

O Projeto Orla poderia ser uma das mais espetaculares ferramentas para resolver o complexo de problemas que reina em nossa orla. Poderia. Não está sendo. Está cuidando apenas de um lado da equação social: patrimônio público, meio ambiente, entre outros elementos de cuidado obrigatório do Poder Público. Sem dúvida, isso se faz necessário. Mas, de uma forma assustadoramente radical, deixa de lado o outro termo da equação social, no qual se encontram as pessoas que vivem da exploração econômica da orla marítima. Essas pessoas, apesar de não atuarem em atividades ilícitas, estão sendo tratadas como “foras-da-lei”. Sequer podem ser comparadas a criminosos sentenciados, porque esses possuem as prerrogativas constitucionais e legais de serem tratados como seres humanos, com a garantia de teto e comida diariamente (e não deveria ser diferente, pois são seres humanos). E quanto às pessoas que sobrevivem da exploração econômica da orla marítima? Banimento! Essa é a pena que está lhes sendo imposta. E sem direito a teto e pão.

Diferentemente do que tenta (e até consegue) fazer parecer a própria máquina governamental e parte da imprensa menos atenta, essa pena não está sendo aplicada apenas pela “canetada” de um magistrado. Essa decisão representa, apenas, o ato-síntese de um projeto macro, cujas dimensões e pretensões não estão totalmente claras. Nisso reside um jogo perverso, que não deveria estar sendo levado a cabo pelo Poder Público. Nem tudo que é legal, é moral. E o Poder Público tem o dever de zelar pela moralidade administrativa. Parafraseando o dispositivo de um diploma legal: a Administração Pública não tem “que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto”.

Honesto seria juntar todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) de todas as esferas governamentais, o Ministério Público, a sociedade civil organizada, o pobre-coitado que busca sobreviver licitamente como barraqueiro, garçom, cozinheira, baiana-de-acarajé entre tantos outros, e buscar estabelecer um diálogo franco, sincero e transparente como deve ser o da Administração Pública (no sentido mais amplo do termo) com os seus administrados em busca de uma solução (ou de várias) menos traumática(s). E, quem sabe até, construir proativamente pontes que ajudassem a se caminhar em direção à efetividade do direito ao trabalho embutido em nossa Constituição, a qual declara que a República Federativa do Brasil tem como fundamento, entre outros, os valores sociais do trabalho; que dispõe que a ordem social tem como base o primado do trabalho e que estatui que a ordem econômica funda-se na valorização do trabalho. Do papel à prática, que distância desnecessariamente tortuosa!

Curiosamente, arvoramo-nos (de forma justa, correta e humanitária, diga-se de passagem!) em campanhas para questionar as leis de outros países, como essa contra a pena de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério, no Irã. Por outro lado, usamos as nossas próprias leis para impossibilitar a sobrevivência digna de milhares de trabalhadores, sem lhes apresentar alternativas.

É mesmo motivo de orgulho saber que somos uma Nação que transcende seus laços de solidariedade para além de suas próprias fronteiras geográficas. Mas, para que esse orgulho seja completo, é necessário enxergar, perceber, sentir uma Nação que também cuida, com a mesma intensidade de sentimento, de sua própria gente; que não a entrega à indigência, à prostituição, ao crime organizado e à tantas outras formas infames de sobrevivência.

Sou plenamente de acordo em estarmos com a “casa em ordem” para quando abrirmo-nos ao mundo em 2014. Mas gente não é lixo, muito menos sujeira que vai parar, escondida, sob o tapete.

Erasmo. Ex-barraqueiro de praia e ex-presidente da Associação dos Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas (1997-2005)


[1] Um dos objetivos estratégicos estabelecidos para o Projeto Orla. Disponível em:  www.meioambiente.ba.gov.br/gercom/projeto_orla.pdf

PROJETO ORLA – II – Não ao genocídio dos barraqueiros de praia

Ontem, 17/08/2010, estive presente na Audiência Pública sobre as barracas de praia realizada na Câmara de Vereadores de Lauro de Freitas. Melhor dizendo: na Audiência Pública sobre os Barraqueiros de Praia! Afinal, o que se está discutindo não é apenas o possível fim de uma estrutura física ou de uma atividade incentivada anos a fio pelo Poder Público em todas as suas esferas: o que está se discutindo é o possível genocídio de toda uma espécie que durante décadas proporcionou lazer à população, que gerou postos de trabalho e impostos para os cofres públicos, mas que agora é ameaçada de ser estirpada como se fosse um câncer maligno. Quais reais interesses estarão por detrás dessa perversa orquestração?

Genocídio significa “Crime contra a Humanidade, caracterizado pela tentativa de destruir um grupo humano”[1], seja ético, religioso, cultural ou qualquer outro que possua características próprias que lhes proporcione uma identidade. E barraqueiro de praia é uma espécie que possui sua própria identidade. Quem teve a oportunidade de ouvir a fala da barraqueira Fernanda, pode compreender o que significa essa espécie ameaçada de extinção. Ao ouvir suas palavras, senti uma emoção muito forte, pois, com uma maestria incrível, ela interpretou dois textos que escrevi: um, há cerca de dez anos e outro mais recentemente.

No primeiro, intitulado “Profissões: barraqueiro!”. escrito durante meu primeiro mandato como Presidente da Associação de Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas, eu mostrava que o barraqueiro de praia não exercia apenas uma profissão, mas várias profissões (por isso, no título, “Profissões”, no plural): comprador, vendedor, salva-vidas, psicólogo, meteorologista, babá de crianças, contador, jornalista, entre outras. Qual outra profissão agrega tantas outras profissões? E ainda assim: “aprendendo na tora”, no labor diário, sem alisar os bancos de uma faculdade?

No segundo, recentemente divulgado, intitulado “Projeto Orla I – A legalidade dissociada da realidade social”, eu questionava porque os barraqueiros de praia estavam sendo tratados como criminosos condenados com a pena de banimento, que é a retirada à força de um nativo de seu próprio território, em virtude de prática de determinado fato tido como criminoso. Não é isso que está acontecendo com os barraqueiros de praia (e com todos aqueles que vivem das atividades econômicas da orla marítima)? Expulsos, banidos, execrados pelos “donos do poder” sem direito à nada. Enfim, condenados à indigência e à mendicância, ao ingresso no tráfico de drogas, à verdadeira criminalidade.

A História da Humanidade tem mostrado que por detrás das ações de genocídio, quase sempre está o “todo-poderoso” interesse financeiro. No genocídio dos barraqueiros de praia, podem-se vislumbrar as várias faces desse interesse, como a especulação imobiliária e a futura instalação de meganegócios na orla marítima, entre outras facetas disfarçadas.

É a História da Humanidade se repetindo.

Mas, além de se repetir, agrega requintes de crueldade: pratica-se o genocídio dos barraqueiros sob o argumento da legalidade; as pessoas são banidas, sem direito à defesa e sem sequer saberem qual crime cometeram; sem direito à indenização pelos sonhos e investimentos perdidos. Promove-se um “faxinaço” no Patrimônio Cultural; tratam os barraqueiros como se fossem lixo; retiram-lhes tudo o que possuem e os expõem nus, despidos de qualquer dignidade, a fim de que tenham sua identidade desmantelada e possam ser exterminados sem dó nem piedade, como os piores criminosos da face da Terra! Genocídio do século XXI.

É como se o Poder Público tivesse adaptado um trecho de um discurso da odiosa “Doutrina Bush”: “Toda a nação, em todas as regiões, agora têm uma decisão a tomar: ou está conosco ou está com os barraqueiros”.

EU ESTOU COM OS BARRAQUEIROS!

NÃO AO GENOCÍDIO DOS BARRAQUEIROS DE PRAIA!

Lauro de Freitas-BA, 18 de agosto de 2010.


[1] Minidicionário da Língua Portuguesa, de Sérgio Ximenes

PROJETO ORLA – I A legalidade dissociada da realidade social

Primeiro, o inquestionável: a orla marítima brasileira precisava, há muito tempo, de uma reordernação. Alguém consegue discordar disso? Nem mesmo eu, que durante onze anos fui barraqueiro de praia. Agora, o questionável: até que ponto, efetivamente, se consegue alcançar o interesse público – fim último de toda estrutura governamental – com normas e ações que ignoram a realidade social? Essa pergunta eu faço como cidadão. E também como ex-barraqueiro.

Sem qualquer margem de dúvida, o trabalho técnico desenvolvido pelo Governo Federal, e disseminado entre os Estados e Municípios, visando a “fortalecer a capacidade de atuação e articulação de diferentes atores do setor público e privado na gestão integrada da orla”[1] é realmente de excelente qualidade. Da concepção à execução, passando pela indispensável fase do planejamento, poder-se-ia considerá-lo irretocável.

Contudo, apesar desse esmero técnico e da tão propalada integração entre os órgãos do governo, a qual proporciona ao leitor dos diversos textos que compõem esse projeto uma impressão de que tudo foi pensado, tal integração é limitada. Perigosamente limitada. Fundamentado tão-só e exclusivamente na “letra fria da lei”, o Projeto Orla ignora uma realidade social, econômica e cultural construída ao longo de décadas. Imagine que a orla marítima é uma linha viva, possuidora de dinâmicas próprias. Agora, imagine uma imensa borracha apagando-a sem qualquer cuidado com o que pode ser aproveitado.

O Projeto Orla poderia ser uma das mais espetaculares ferramentas para resolver o complexo de problemas que reina em nossa orla. Poderia. Não está sendo. Está cuidando apenas de um lado da equação social: patrimônio público, meio ambiente, entre outros elementos de exercício obrigatório pelo Poder Público. Sem dúvida, isso se faz necessário. Mas, de uma forma assustadoramente radical, deixa de lado o outro termo da equação social, no qual se encontram as pessoas que vivem da atividade de barraca-de-praia. Essas pessoas, apesar de não atuarem em atividades ilícitas, estão sendo tratadas como “foras-da-lei”. Sequer podem ser comparadas a criminosos sentenciados, porque esses possuem as prerrogativas constitucionais e legais de serem tratados como serem humanos, com a garantia de teto e comida diariamente (e não deveria ser diferente, pois são seres humanos). E quanto às pessoas que sobrevivem da exploração de serviços na orla marítima? Banimento. Essa é a pena que está lhes sendo imposta. E sem direito a teto e pão.

Diferentemente do que tenta (e até consegue) fazer parecer a própria máquina governamental e parte da imprensa menos atenta, essa pena não está sendo aplicada apenas pela “canetada” de um magistrado. Esse ato representa o resultado de múltiplas operações complexas anteriores a ele. E nisso reside um jogo perverso, que não deveria estar sendo levado a cabo pelo Poder Público. Nem tudo que é legal, é moral. E o Poder Público tem o dever de zelar pela moralidade administrativa. Parafraseando o dispositivo de um diploma legal: a Administração Pública não tem “que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto”.

Honesto, neste caso,  seria juntar todos os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), o Ministério Público, a sociedade civil organizada, o pobre-coitado que busca sobreviver licitamente como barraqueiro, garçom, cozinheira e tantos outros, e buscar estabelecer um diálogo franco, sincero e transparente como deve ser o da Administração Pública com os seus administrados em busca de uma solução (ou de várias) menos traumática(s). E, quem sabe até, construir proativamente pontes que ajudassem a se caminhar em direção à efetividade do direito ao trabalho embutido em nossa Constituição, a qual declara que a República Federativa do Brasil tem como fundamento, entre outros, os valores sociais do trabalho; que dispõe que a ordem social tem como base o primado do trabalho e que estatui que a ordem econômica funda-se na valorização do trabalho.

Curiosamente, arvoramo-nos (de forma correta, justa e humanitária) em campanhas para questionar as leis de outras nações, como essa contra a pena de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por adultério, no Irã, mas usamos as nossas próprias leis para impossibilitar a sobrevivência digna de milhares de trabalhadores, sem lhes apresentar alternativas.

É mesmo motivo de orgulho saber que somos uma Nação que transcende seus laços de solidariedade para além de suas próprias fronteiras. Mas, para que esse orgulho seja completo, é necessário enxergar, perceber, sentir uma Nação que também cuida, com a mesma intensidade de sentimento, de sua própria gente; que não a entrega à indigência, à prostituição e ao crime organizado.

Sou plenamente de acordo em estarmos com a “casa em ordem” para quando abrirmo-nos para o mundo em 2014…mas sem sujeira escondida sob o tapete.

Por favor!

Erasmo. Ex-barraqueiro de praia e ex-presidente da Associação dos Barraqueiros da Orla Marítima de Lauro de Freitas (1997-2005)


[1] Um dos objetivos estratégicos estabelecidos para o Projeto Orla. Disponível em:  www.meioambiente.ba.gov.br/gercom/projeto_orla.pdf

Recomeços

Às vezes, mar calmo, horizonte próximo. Tudo certo. É o que pensamos.

Então, vem a onda. Gigante. Violenta.

E o horizonte se perde entre bolhas de ar. O mundo fica de cabeça para baixo.

O céu se foi com seu azul sereno.

Sobreviver já é o bastante. Já não mais interessam as gaivotas.

Já não mais interessam os golfinhos e seus saltos.

Apenas uma tábua de salvação basta.

Respirar sem engolir água.

Chegar até à praia mais próxima e chorar por ainda estar vivo.

Recomeçar.

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